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Sunday, May 15, 2011

IndieLisboa'11: antevisão (último dia) e premiados

Teve ontem encerramento oficial a 8ª edição do festival de cinema independente IndieLisboa com The Ballad of Genesis and Lady Jaye, realizado por Marie Losier, por ter vencido o Grande Prémio "Cidade de Lisboa" (Longa-Metragem). Era um dos filmes que eu gostava de ter ido ver, apesar de depois ter ficado a conhecer algumas críticas negativas, nomeadamente a de Flávio Gonçalves, em O Sétimo Continente. Ainda assim, o dia de hoje oferece muitas e expectantes opções de filmes, qual dénouement, ao mostrar alguns dos premiados ("Prémio do Público", "Curtas Premiadas", "Cidade Lisboa (Longa-Metragem)", "Melhor Competição Nacional"), peças do Director's Cut como Johnnie Got His Gun, Flooding With Love for the Kid, Eden (documentário português, premiado) e A Letter to Elia, de Martin Scorsese. Destaco também Meek's Cutoff, de Kelly Reichardt (realizadora do badalado "Wendy and Lucy") e a homenagem aos filmes de série B, Rubber, de Quentin Dupieux, sobre um pneu roadster assassino. Consultem aqui o programa completo para este último dia, em que há vontade de ver muitos filmes, mas em que não há o cinto da Hermione.

Deixo-vos os premiados.


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Grande Prémio Cidade de Lisboa para Longa-Metragem
The Ballad of Genesis and Lady Jaye, de Marie Losier

Menção Honrosa (Longa-metragem)
La BM du Seigneur, de Jean Charles Hue

Grande Prémio para Curta-Metragem
The Story of Elfranko Wessels, de Erik Moskowtiz e Armanda Trager

Menção Honrosa (Curta-metragem)
Diane Wellington, de Arnaud des Pallières
La Fôret, de Lionel Rupp
The Painting Sellers, de Juho Kuosmanen

Prémio de Distribuição
Morgen, de Marian Crisan


COMPETIÇÃO NACIONAL

Prémio CGD para Melhor Longa-Metragem Portuguesa
Linha Vermelha, de José Filipe Costa

Prémio Pixel Bunker para Melhor Curta-Metragem Portuguesa
Alvorada Vermelha, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

Prémio TAP para Melhor Longa-Metragem Portuguesa de Ficção
O Que Há de Novo no Amor?, de Hugo Martins, Hugo Alves, Mónica Santana Baptista, Patrícia Raposo, Rui Santos e Tiago Nunes

Prémio TAP para Melhor Documentário de Longa-Metragem Português
Eden, de Daniel Blaufuks

Prémio Restart para Melhor Realizador Português de Curta-Metragem
Gabriel Abrantes por Liberdade & Marco Martins e Filipa César por Insert

Prémio Novo Talento FNAC
Patrick Mendes por Homenagem a quem não tem onde cair morto

Prémio AIP de Melhor Imagem para Longa-Metragem Portuguesa
Carlos Lopes "Cácá" por América
Menção Honrosa (Longa-metragem)
Luís Branquinho por O Barão

Prémio AIP de Melhor Imagem para Curta-Metragem Portuguesa
Takashi Sugimoto por Wakasa

Prémio SIGNIS - Árvore da Vida
La Ilusión Te Queda, de Márcio Laranjeira e Francisco Lezama

Menção Honrosa
Swans, de Hugo Vieira da Silva
Os Milionários, de Mário Gajo de Carvalho

Prémio RTP Pulsar do Mundo
I Will Forget This Day, de Alina Rudnitskaya

Menção Honrosa
Pallazo Dele Aquile, de Stefano Savona, Alessia Porto e Ester Sparatore

Prémio RTP2 Onda Curta
Diane Wellington, de Arnaud des Pallières
How To Pick Berries, de Elina Talvensaari
I Don't Blame The Beautiful Game, de Christopher Arcella
Nuit Blanche, de Samuel Tilman

Prémio Amnistia Internacional
Cleveland Contre Wall Street, de Jean-Stépahne Bron
Menção Honrosa
I Will Forget This Day, de Alina Rudnitskaya

Prémio do Público Pepsi para Melhor Longa-Metragem
Cleveland Contre Wall Street, de Jean-Stépahne Bron

Prémio do Público Pepsi para Curta-Metragem
Paris Shangai, de Thomas Cailley

PRÉMIOS INDIEJÚNIOR

Prémio Melhor Filme IndieJúnior
My Good Enemy, de Oliver Ussing

Menção Honrosa
Les Mains En L'Air, de Romain Goupil
Cul de Bouteille, de Jean-Claude Rozec

Prémio do Público IndieJúnior
Things You'd Better Not Mix Up, de Joost Lieuwma

Friday, May 13, 2011

IndieLisboa'11 e Cannes'11: breves comentários

Peço desculpa por estes dois dias de interregno, numa altura em que queria ter mantido o blog o mais actualizado possível no que toca ao IndieLisboa'11 (cobertura e antevisão) e ao Cannes'11 (notícias e reacções). Problemas de conexão, problemas de ligação à internet, enfim.
Deixo-vos com breves palavras, por hoje, e amanhã conto voltar ao ritmo.

Tive ontem a oportunidade de assistir, no Teatro do Bairro, a um delicioso documentário sobre o trabalho de Ingmar Bergman, ...But Film is my Mystress, realizado por Stig Björkman. A película atravessa vários filmes do mestre sueco, como Autumn Sonata, Chries and Whispers, After the Rehearsal, e conta com os apaixonados e admirados comentários de distinguidas personalidades como a emocionada Liv Ullman, Olivier Assayas, Martin Scorsese, Bernardo Bertolucci e Woody Allen. No final, por ser muito curto, sabe a pouco, mas é muito interessante. Ficamos a conhecer um pouco mais dos seus temas, do trabalho do realizador com o argumento e, especialmente, com os actores, com todas as suas intimidades e, particularmente enternecedor, com toda a saudade que ele sentia deles. Vemos imagens belíssimas, como a de Bergman de braço dado com o seu fidelíssimo director de fotografia, Sven Nykvist, a passearem, eventualmente discutindo alguma das suas obras. No final tivemos direito a ver respondidas algumas questões, cujas respostas complementaram o que acabávamos de ver - a incrível boa disposição de Ingmar, contrariamente ao que se pode pensar depois de ver um dos seus (muito bem apelidados por Stig) austeros e duros filmes, à sua paixão e respeito pelo trabalho e pelas pessoas à sua volta. Um dia depois ao seu maior admirador de sempre, Woody Allen, ter pronunciado, em plena conferência de imprensa em Cannes, que "nunca será um grande realizador", ficámos nós lembrados, agora sem considerações sobre o nova-iorquino, de que Ingmar Bergman foi um dos maiores de sempre, e sempre o será. A nostalgia fica, particularmente pautada pelas declarações finais do autor de Annie Hall. Sem Fellini, sem Kurosawa, sem Bergman, sem Ford, sem...

Para um acompanhamento destes dois últimos dias em França, sugiro-vos a consulta d'O Sétimo Continente, ou do Split Screen, que destaca Habemmus Papam, de Nanni Moretti, Restless, de Van Sant e The Sleeping Beauty, de Julia Leigh. Entre tantos outros, The Tree of Life está cada vez mais perto.

Wednesday, May 11, 2011

IndieLisboa'11: Attenberg (cobertura dia 6)

Desde que o filme abre que são óbvias as semelhanças estéticas com a belíssima anterior obra vinda da Grécia, Dogtooth. As cores claras e desgastadas, hospitalares, na verdade; a forma como a câmara espera por todas as acções e todos os movimentos e diálogos bizarros e estranhos dos personagens, sempre a uma distância mecânica de um plano americano (conferindo maior significação às aproximações aos rostos, planos bem bonitos); os enquadramentos autistas, planos, de uma realidade fechada e a duas dimensões. São os tons e a atmosfera do antecedente filme, realizador por Yorgos Lanthimos, que protagoniza aqui a figura do engenheiro.

Nestes termos, é muito interessante e adivinha, ou confirma, depende do que se seguirá e do ponto de vista com que se olha, a nova tendência do cinema grego, aqui pela mão de Athina Rachel Tsangari. Porém, narrativa e tematicamente não me deixou propriamente satisfeito e creio que é aqui que fica bastante aquém do outro filme, mesmo percorrendo a mesma lógica metafórica. Trata-se aqui a descoberta ou emancipação sexual de Marina, que praticamente vem de um ovo de ignorância e não sabe sequer beijar - aliás, deste perturbador plano inicial e ponto instigador da história, catapultam-se uma série de momentos, como afirmei, bizarros, tão realistas quanto surreais (e aí, por exemplo, a menção para a "árvore de pénis"). O contraponto é a sua amiga Bella, que retratando uma passividade semelhante, esconde uma leviandade contrastante ("(...) come toda a gente." - incluindo o pai de Marina).

Peca, parece-me, por certa falta de rumo. Terá uma estrada, mas não um caminho. Senti pouca utilidade em muitas das sequências a que assisti e tive dificuldade em que articular um desenvolver de um tema sem interrupções forçadas de tentativas de extra-realismo. Por vezes, socorre-se demasiado da simbologia, ora do gesto ora da palavra, e a ligação das cenas torna-se um pouco arty.

O filme esteve nomeado para o Leão de Ouro em Veneza e a actriz principal Ariane Labed venceu a Copa Volpi, destinada às melhores performances - de facto, gostei. De qualquer forma, um caso a analisar com mais detalhe, no futuro.

Monday, May 9, 2011

IndieLisboa'11: antevisão (dia 5)

Dado que hoje e quarta-feira não poderei, infelizmente, estar presente em nenhuma das sessões do festival, limitar-me-ei a fazer a antevisão dos respectivos dias.

O maior destaque para o dia de hoje parece-me ser Swans, filme de Hugo Vieira da Silva, que esteve na edição deste ano do Festival de Berlim. É a história de um rapaz que visita Berlim com o pai, para visitarem a mãe que está em coma e a ideia é, por aí, retratar o choque do pequeno skater face à morte, ao envelhecimento. Também de Berlim, aliás, filme duplamente premiado, temos The Ballad of Genesis and Lady Jaye, uma co-produção francesa e norte-americana, dirigida por Marie Loisier, que conta uma história de amor entre as duas importantes figuras no mundo da música (sobre ele, escrevem alguns críticos, "o pai da música industrial"). A sua parceria era de tal forma incrível que em 1993, Genesis P-Orridge se submeteu a uma cirurgia para se assemelhar fisicamente a ela, Lady Jaye. Um dos filmes que tenho mais pena de perder.

Para além de muitas sessões de curtas metragens, nacionais, internacionais, de cinema emergente, temos Pop Dell Arte, documentário sobre a banda nacional do mesmo nome, e ainda a repetição de Vampires, sobre uma comunidade de vampiros belgas, que me parece ser muito interessante.

Na cinemateca, não percam Matou a Família e Foi ao Cinema, obra de 1969 do herói independente Júlio Bressane. Podem consultar aqui o resto do programa.

IndieLisboa'11: Viagem a Portugal (2010) (dia 4)

Depois do sucesso que já havia granjeado por parte do mundo cinéfilo, com o documentário Lisboetas, premiado na primeira edição do IndieLisboa, um ano depois do também documentário A Cidade dos Mortos, que esteve há pouco tempo no circuito comercial e que não tive a oportunidade de ver, Sergio Trefaut, brasileiro, chega pela primeira vez a uma ficção a sério. Confessando que cheguei à sala de cinema com poucas expectativas, também confesso que saí de lá completamente embasbacado, depois de um dos melhores filmes portugueses que já vi.

A estética é minimalista, branca brilhante, polvilhada de subtis cinzentos e definidos e estruturais negros. A geometria cumpre a mesma função, sempre muito concreta, ora bem recta, ora lindamente oval. A difícil tarefa de contar uma história consignada a um tão pequeno espaço (praticamente foi aquela sala de interrogatório), foi aqui levada a cabo por uma abstracção geral da localização - não ao jeito dreyeriano ou godardiano, na montagem e nos saltos, mas sim nos olhares e na utilização da cor (por exemplo, aqueles constantes frames brancos, que ao início custaram a assimilar, mas que rapidamente faziam parte da beleza do interregno que aquela mulher vivia).

A história não tem segredo de maior e é baseada num caso verídico. O poder está no bailado linguístico que Tréfaut conseguiu criar, dando particular credibilidade e força ao diálogo em português, algo que dificilmente se vê fazer. Depois, a estratégia foi contar os acontecimentos basicamente através das reacções das personagens e teve a sorte de ter Maria de Medeiros a fazer uma das interpretações da década (se contarmos como pertencendo à década passada, que daqui a uns anos não acontecerá); Isabel Ruth absolutamente maravilhosa e Diop também muito bem.

Tenho dúvidas de que seja um filme que vá conhecer muito sucesso no circuito comercial. Apesar da forma como me afectou, não deixa de ser uma peça difícil e muitíssimo pouco convencional. Mas este sim, é um filme português que eu espero que corra muitos festivais.

Sunday, May 8, 2011

IndieLisboa'11: cobertura (dia 3)

Hoje voltei a passar pelas curtas metragens, desta vez na sessão Competição Nacional Curtas 1, que não conseguiu valer mais do que a de ontem. Começámos com Casa, de André Gil Mata, da qual já tinha falado. Desta vez, o realizador honrou-nos com a sua presença, incrivelmente tímido, e explicou que foi um filme sobre e dedicado à sua avó - mais pessoal não podia ser, portanto. Seguiu-se Os Milionários, animação de 14 minutos de Mário Gajo de Carvalho, que já por mais do que uma vez aqui havia mencionado, salientando as minhas expectativas. Sem dúvida o melhor filme da sessão e ainda que, no fundo, estivesse à espera de outra coisa, achei interessante. Deixo, no entanto, alguma reticência para a frase com que acaba o filme, que me desiludiu um pouco: "Fim dos Milionários". Até então, estava a compreender aquilo como a metáfora da ganância, como creio ter sido a intenção do realizador e do argumentista mas questiono-me sobre algum conteúdo político-ideológico, em vez de nada ou do clássico e simples "Fim". É que, pareceu-me, retira alguma subtileza à questão. La Ilusión Te Queda, co-produção Portuguesa e Argentina, realizada por Márcio Laranjeira e Francisco Lezama é um conjunto desinteressante de conversas fúteis e planos aborrecidos (nomeadamente a sequência final), com uma ou duas deixas com piada. Terminámos com o veterano Marco Martins e com Filipa César, realizadores de Insert. Como ficção (que é assim que está classificado), é absolutamente incompreensível e a total ausência de som é só muito entediante. Como exercício estético mais experimental, teve coisas interessantes, nomeadamente no sentimento de descoberta sexual que alguns planos bonitos e a montagem ágil conseguiram revelar.

Friday, May 6, 2011

IndieLisboa'11: cobertura (dia 2) e antevisão (dia 3)

Hoje assisti à sessão do Cinema Emergente Curtas 1 e o balanço é desinteressante. Abriu com Bathing Micky, vencedora do Prémio do Júri em Cannes'10, um documentário sobre uma idosa que pertence a um clube de banhistas e que desabafa sobre as mágoas da idade, que tem umas frases interessantes (uma reflexão semelhante à que um dia fez Saramago: "Envelhecer é ver os amigos morrer.") e umas expressões curiosas, mas nada mais. Seguiu-se Tre Ore, de Itália, uma história de uma menina que tem a oportunidade de falar com o pai, nas 3 horas que este pode estar fora da prisão, condenado por homicídio. Chega a ter deixas que podiam ter dado um filme muito interessante (quando a miúda lhe pede para ele lhe ensinar a disparar), mas não está nem vai a lado nenhum. Monsieur L'Abbé ameaçou seguir na calçada das outras duas, mas conseguiu surpreender nos últimos 10 minutos (de um total de 35). Todo o tempo é ocupado com imensas personagens, uma de cada vez, cada uma com direito ao seu plano estático (às vezes mais uma aproximação ou outra), em que reproduzem as várias cartas com questões práticas sobre a sexualidade, escritas a um padre da Normandia, na década de 30. Tem deixas bastante engraçadas e consegue erguer-se sem parecer a revista "Maria". Apesar de sofrer, a meio, pela grande repetitividade, alguns dos actores trazem um sentido peculiar e permitem-nos fazer associações engraçadas entre as suas ingénuas dúvidas (sempre temerosas de Deus, da moral e dos bons costumes) e a sua caracterização física, procurando descortinar quem serão eles. A última intervenção, o satisfatório grito de revolta das mulheres, é uma chapada de luva branca na mesquinhez da igreja, e a actriz era engraçadíssima. Seguiu-se Ámár, uma animação surrealista sobre uma visita de uma rapariga a um amigo, num hospital psiquiátrico. Interessante pelo grafismo, pelo uso do som e pela intensidade psicadélica; resulta. Sur La Tête de Bertha Boxcar, mais uma de França, pareceu reunir o consenso da audiência como sendo terrível e completamente incompreensível. Terminámos com Casa, de André Gil Mata, uma curta experimental de 4 minutos. Estava a ser muito interessante, muito fantasmagórica, lembrando aquelas fotografias antigas em que há uma pessoa meio transparente, que se diz ser um espírito, até à altura em que aparece alguém a limpar o chão e um velhinho.

Para amanhã, Sábado (tecnicamente, já é hoje), destaco a repetição de Les Amours Imaginaires, de Dolan, que abriu ontem o festival, Cleópatra e O Anjo Nasceu do herói independente Júlio Bressane, Neil Young Trunk Show, documentário musical do conceituado realizador americano Jonathan Deemme e ainda o documentário de João Canijo, Trabalho de actriz, trabalho de actor, sobre trabalhar os argumentos e as personagens com os actores. Não percam ainda várias sessões de curtas, nomeadamente a Competição Nacional 1, que mostrará Os Milionários, de Mário Gajo de Carvalho, um pequeno heist film de animação, que me despertou grande interesse. E há mais: deixo o programa completo.

IndieLisboa'11: Carlos (2010) (dia 1)

Carlos, de Olivier Assayas, foi o filme que escolhi para começar a edição deste ano do festival e tenho sérias dúvidas de que outra opção pudesse ter sido tão boa. Esta é a história (biográfica, na verdade) de Ilich Ramírez Sánchez, de nome de código "Carlos", um venezuelano revolucionário que, em plena guerra fria, se junta à causa palestiniana pelos conspurcados trilhos do Médio Oriente.

Com a sua câmara oscilante, o realizador traz-nos a fragilidade das relações do seio das teias do terrorismo (a instabilidade é constante, a anarquia tem aí os seus embriões, na completa ausência da força da institucionalidade) e ainda assim regista o seu dinamismo e agilidade, quer seja no planeamento de inteligentes operações, quer seja no aguçado tráfico de armas.

Assayas construiu um guião muito coeso, consistente e bem estruturado, capaz de agarrar o espectador durante as quase três horas, servindo-se da personagem principal, muito bem interpretada por Édgar Ramírez, para ir levando o filme para a frente, enfatizando a psicologia, a paixão da revolução e os marcos históricos, mais do que um plot surpreendente ou de grande destreza (afinal, a História já foi escrita). Passa por cenas incríveis, como a comunhão entre a tensão sexual e a "líbido do armamento", com Carlos e a namorada (e as devidas inserções do elemento "forma física", ao longo da película), os assassinatos dos três polícias, tão bem duziado pelos tons e melodias latinos de relief num belo jogo de tensão, ou mesmo a sequência do sequestro da cimeira da OPEP.

É com um ritmo rápido e bem marcado (até formalmente, pelos elucidativos dissolve) que vamos escalando desde o início dos anos 70 até ao à segunda metade dos anos 90, naquilo que foi uma das coisas que mais me surpreendeu. Parece-me muito difícil conseguir construir uma narrativa, no pouco tempo que pode ter um filme, por tantos anos, com tantos momentos importantes em vários deles - algo muito diferente, por exemplo, da famosa montage-sequence de Raging Bull. Porém, se no geral isso bem me encantou senti que os últimos 45 minutos, em que o próprio Carlos já reconhece o seu destino, entramos numa corrente ligeiramente repetitiva e, por vezes, arrastada, tirando ao final do filme a pujança que chegou a criar e que merecia, de facto.

Tudo vai combinando para nos irmos embrenhando cada vez mais nas teias do tráfico de influências, da corrupção, da negociação, da diplomacia, de todo um espectro de relações entre alguns dos mais poderosos países do Médio Oriente (Iraque, com Sadam; Líbia, com Khadafi; Sudão, Arábia Saudita, Argélia, Israel), nas constantes e bruscas mudanças da conjuntura (como as que ditou o fim da Guerra Fria, a "derrota do comunismo"), na vida e obra de um homem que quis ser um Che, e que terminou os seus últimos tempos em liberdade como um resignado, fugitivo e gordo. Toda a atmosfera e elementos narrativos apontam para isso mesmo, ao conceder uma hora de filme a um Carlos fisicamente muçulmano (um belo pormenor, na gradual transformação do bigode e do cabelo), esquecido de uma luta de verdade, vivendo sob a asa de protecções efémeras, de família destruída e com ingénua nova tentativa, doente.

Thursday, May 5, 2011

IndieLisboa'11: antevisão (dia 1)

Abre hoje as portas mais uma edição do festival internacional de cinema independente que roda os seus filmes pela capital. Oficialmente, começará com uma cerimónia de abertura no cinema S. Jorge, com Les Amours Imaginaires, de Xavier Dolan, que nos seus tenros 20 anos venceu três prémios em Cannes'10, com J'ai Tué ma mére, e que com este conseguiu o Regards Jeunes Prize e uma nomeação para o Un Certain Regard. Depois do registo assumidamente autobiográfico do primeiro filme, o realizador canadiano volta a abordar a homossexualidade e o sexo despido de dilemas morais.
O outro destaque vai para Carlos, de Olivier Assayas, realizador francês que marca presença regular nos maiores festivais da Europa (e do mundo) e que dispensa apresentações. Desta vez traz-nos uma película que granjeou boas críticas aquando da sua estreia na passada edição do festival de Cannes, sobre Ilich Ramírez Sanchez, o revolucionário venezuelano que criou uma organização terrorista, conhecido pela investida contra a OPEP, em 1975. É um filme grande, com 162 minutos, que está inclusive a ser distribuído como uma mini-série.
No recente Teatro do Bairro, teremos Rubber, de Quentin Dupieux, um filme particularmente pouco ortodoxo para os dias de hoje, sobre um pneu assassino, num registo dos clássicos "série B". O filme ficou mal cotado em Cannes'10, mas seguiu com mais força pelo resto do mundo.

Terão ainda outras hipóteses, que vos convido a não deixar passar, e por isso vos deixo o programa. Passem por cá mais tarde para ficarem a conhecer a cobertura de uma das sessões de hoje.

Tuesday, May 3, 2011

IndieLisboa'11: os mais esperados - Parte 2


OBSERVATÓRIO - CURTAS METRAGENS

Tiong Bahru, RU, fic./doc.
Chienne D'Histoire, FRA, fic.
Rayning, EUA, exp.
All Flowers In Time, EUA/CAN, exp./fic.
John's Gone, EUA, fic.


CINEMA EMERGENTE - LONGAS METRAGENS

All Good Children, Alicia Duffy, IRL/BEL, fic., 2010.
Les Amours Imaginaires, Xavier Dolan, CAN, fic., 2010.
Brownian Movement, Nanouk Leopold, HOL, fic., 2010.
Linha Vermelha, José Filipe Costa, POR, doc., 2o1o.
Post Mortem, Pablo Larrain, CHI/MEX, 2010.
Rubber, Quentin Dupleux, FRA, fic., 2010.
Simon Werner a Disparu, Fabrice Gobert, FRA, fic., 2010.


CINEMA EMERGENTE - CURTAS METRAGENS

Ámár, ESP, anim.
Sur la tête de Bertha Boxcar, FRA, fic.
Drexciya, GAN/EUA, doc./exp.
Swimming Away, EUA, fic./doc.
Helliocentric, RU, exp.
I don't blame the beautiful game, EUA, fic.
Ensaio de cinema, BRA, fic.


PULSAR O MUNDO - LONGAS METRAGENS
Cleveland Contre Wall Street, Jean-Stéphane Bron, SUI/FRA, doc., 2010.
Grande Hotel, Lotte Stoops, BEL, doc., 2010.

PULSAR O MUNDO - CURTAS METRAGENS

Slow Action, RU, doc.


HERÓI INDEPENDENTE - JÚLIO BRESSANE

Cinema Inocente, fic., 1980.
Cleópatra, fic., 2007.
Dias de Nietszche em Turim, fic., 2001.
Matou a Família e foi ao Cinema, fic., 1989.
Memórias de um estrangulador de loiras, fic., 1971

INDIE MUSIC
The Agony and the Ecstasy of Phil Spector, Vikram Jayanti, RU, doc., 2008.
John Lenon - Love is all you need, Alan Byron, RU, doc., 2010.


DIRECTOR'S CUT

...But film is my Mystress, Stig Björkman, SUE, doc., 2010 (sobre Ingmar Bergman).
A Film Unfinished, Yael Hersonski, EUA/ISR, doc., 2010 (sobre o cinema nazi).
A Letter to Elia, Martin Scorsese, EUA, doc., 2010 (sobre Elia Kazan).
En Compagne de Eric Rhomer, Marie Riviére, FRA, doc., 2010 (sobre Eric Rhomer).
Johnnie Got His Gun, Yves Montmayeur, HK/FRA, doc., 2010. (sobre Johnnie To).
Long live the new flesh, Nicholas Provost, BEL, doc., 2010 (sobre uma comunidade de vampiros).
Trabalho de actriz, trabalho de actor, João Canjo, POR, doc., 2010 (sobre o trabalho com actores).

Sunday, May 1, 2011

Cinemateca fortíssima no mês de Maio


Podem consultar o programa aqui.

Deixo alguns destaques:

2 Maio (segunda) - Casablanca (Michael Curtiz).
3 Maio (terça) - Manhunt (Fritz Lang).
4 Maio (quarta) - Branca de Neve (João César Monteiro).
5 Maio (quinta) - Anjo Exterminador (Luis Buñuel) e Hiroshima Mon Amour (Alain Resnais).
7 Maio (sábado) - Pinóquio (Walt Disney).
9 Maio (segunda) - Two Road Together (John Ford).
13 Maio (sexta) - The Maltese Falcon (John Huston).
14 Maio (sábado) - North by Northwest (Alfred Hitchcock).
17 Maio (terça) - T-Men (Antonny Man) e Il Casanova (Federico Fellini).
19 Maio (quinta) - Straw Dogs (Sam Peckinpah).
21 Maio (sábado) - The Jungle Book (Walt Disney).
23 Maio (segunda) - Carmen Jones (Otto Preminger) e Star Wars: Episode IV (George Lucas).
24 Maio (terça) - Ginger and Fred (Federico Fellini).
25 Maio (quarta) - The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (Peter Jackson) e Os Verdes Anos (Paulo Rocha).
26 Maio - The Dark Knight (Christopher Nolan).
27 Maio (sexta-feira) - Bellissima (Luschino Visconti), Uma Abelha na Chuva (Fernando Lopes) e Germmania Anno Zero (Roberto Rosselini).
28 Maio (sábado) - Fort Apache (John Ford) e La Strada (Federico Fellini)
30 Maio (segunda) - Mon Oncle (Jacques Tati)

Contem ainda com Manoel de Oliveira, John Carpenter, Jean Renoir, Nicholas Ray, Ingmar Bergman, King Vidor, Raoul Walsh, a malta dos Simpsons e ainda o "herói independente" do Indie Lisboa'11, o brasileiro Júlio Bressane.


Wednesday, April 27, 2011

IndieLisboa'11: os mais esperados - Parte 1

Aqui deixo a lista dos filmes que mais aguardo para esta 8ª edição do festival de cinema IndieLisboa, que decorrerá na capital entre 5 e 15 de Maio, nos cinemas São Jorge, . Deixo-vos o link para o site, onde podem saber tudo desde preços, a horários, a localizações, a seminários, a todas as novidades e. ainda, a programação completa.


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL - CURTAS METRAGENS

La Fille & Le Chasseur, SUI, anim.
Os Milionários, POR, anim. (este é o que mais me atrai, de todo o festival)
On the Water, HOL, anim.
The Death of an Insect, FIN, anim.
Diarchia, ITA/FRA, fic.
Memme, BEL, anim.
Irma, MEX/EUA, doc.
House Wonders, Birds Water Full, ALE, anim.
1989 (When I Was 5 Years Old), DIN, fic.
Diane Wellington, FRA, fic.
Wakasa, POR, doc.
Pixels, FRA, anim.
Far From Manhattan, FRA, fic.
How To Pick Berries, FIN, doc.


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL - LONGAS METRAGENS

Above Us Only Sky, Jan Schomburg, ALE, fic., 2010.
Attenberg, Athina Rachel Tsangari, GRE, fic., 2010.
O Céu Sobre os Ombros, Sérgio Borges, BRA, fic./doc., 2010.
Gravity Was Everywhere Back Then, Brent Green, EUA, fic., 2010.
Memory Lane, Michaël Hers, FRA, fic., 2010.


COMPETIÇÃO NACIONAL - CURTAS METRAGENS

Memórias de Cão, POR, anim.
Incêndio, POR/BRA, fic.
Homenagem a quem não tem onde cair morto, POR, fic.
Liberdade, POR, fic.
Alvorada Vermelha, POR, fic.

COMPETIÇÃO NACIONAL - LONGAS METRAGENS

O Barão, Edgar Pêra, POR, fic., 2010.
O Que Há de Novo no Amor, vários, POR, fic., 2010.
Swans, Hugo Almeida, POR/ALE, fic., 2010.


OBSERVATÓRIO - LONGAS METRAGENS

Carlos, Olivier Assayas, FRA/ALE, fic., 2010.
Essential Killing, Jerzy Skolimowski, POL/NOR, fic., 2010.
Homme au Bain, Christophe Honoré, FRA, fic., 2010.
Kaboom, Greg Araki, EUA/FRA, fic., 2010.
Meek's Cutoff, Kelly Reichardt, EUA, fic., 2010.
Mulberry St., Abel Ferrara, EUA, doc., 2010.
Robinson in Ruins, Patrick Keiller, ING, doc., 2010.
Tabloid, Errol Morris, EUA, doc., 2010.

Tuesday, April 5, 2011

A Gente Não Vê estará no IndieLisboa'11

O A Gente Não Vê estará presente em várias sessões de um dos maiores festivais de cinema de Portugal, o IndieLisboa'11 (8ª edição). Para já, deixo-vos o programa e convido-vos a irem passando cá durante esta e a próxima semanas, sendo que irei deixando as minhas preferências quanto à oferta deste ano.

Programa.

Site oficial.