Friday, August 20, 2010

Os melhores das décadas, 2000: Code Inconnu / Código Desconhecido


Provavelmente, a mais bonita e profunda reflexão sobre a linguagem como principal veículo dessa essencial forma de ser e estar do Homem que é a Comunicação - algo tão prático, concreto e palpável como etéreo e multidimensional. Haneke junta, em Código Desconhecido, um quadro de personagens que pouco têm de comum entre si, fora os grupos que se admitam formar entre algumas delas (relações familiares), cuja tinta aí parece ter sido deixada cair, libertando-se das correias da pena e correndo ao sabor de um qualquer magnetismo natural.
Quando se conhecem, se cruzam ou se confrontam, o acaso é quase sempre o principal engenheiro, pois limitam-se a viver as suas vidas e a seguir os seus caminhos. Porém, o mundo em que vivem, aliás, em que vivemos, é marcado a fogo e banhado a gelo por uma frustração e uma angústia do entendimento, e é exactamente essa aflitiva incomunicabilidade do Homem a que assistimos por trás de uma câmara maioritariamente estática, que nos torna a nós puros voyeurs e que dá aos inúmeros episódios a que assistimos uma filosofia e uma fluidez ridiculamente quotidiana - eles passam e podem até esconder-se atrás das lentes, se assim quiserem.

Durante duas horas, assistimos a uma série de acções e reacções que traduzem com pujante sinceridade e pureza, sempre sem pretenciosismos ou julgamentos morais, o aflitivo e completamente abafado grito de socorro que a sociedade precisa e tenta dar, contra a solidão (uma foto documental, um cigarro aceso, um riso desalmado - "está aí alguém ?"), contra a resignação, deturpação e decadência social, moral e política (a relação entre Jean e o pai, um vai e vem de inexplicáveis fugas e desencontros). Vivemos numa terra dividida por nós, sob um céu já polvilhado de desespero (um tractor que culmina a divisão entre terra batida e relva, com um céu com algumas nuvens) e a cada dia que passa nós aparece uma solução à frente: chorar, enquanto a festa continua, atrás de nós.

Queremos falar, queremos ser ouvidos, precisamos que nos ouçam, precisamos de ouvir. Batalhamos por uma verdade que não conhecemos sequer, oscilamos numa dicotomia entre distância e proximidade (só ouvimos um dos lados do telefone, e a mulher fica à porta, em pleno reencontro após meses de serviço militar). E enquanto tudo pode ser um meio de chegar ao outro - a voz, o gesto, o olhar, todo o corpo - damos por nós a enfrentar a humanidade, recheada de pessoas todas diferentes mas todas iguais, que em fotografias sucessivas de todas elas não conseguiríamos condenar nenhuma. E perguntamos: "O que posso fazer para ajudar ?". E repetimos.


As quatro últimas cenas fecham esta obra de forma magistral. Os tambores começam, ritmados, mas, ao contrário da primeira vez em que surgem, não param e está lançado o som da batalha para que temos de partir; uma mulher que no metro é perseguida, instigada e pressionada contra a fractura social que existe entre os Homens, implodindo no seu próprio sofrimento; um homem já não sabe o código para abrir a porta que outrora até abria por dentro; num lindíssimo paralelismo com a primeira cena, crianças surdas-mudas jogam à mímica e nós não temos maneira de saber o que nos tentam dizer - contudo, apesar de ser um código desconhecido, não é um código ininteligível.

6 comments:

  1. Estou de acordo. É um filme brilhante. Também BABEL é um parente próximo, sobre a linguagem que nos une e separa, neste mundo globalizado.

    5 estrelas.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  2. É sim senhor, Roberto. É uma boa ideia para uma próxima crítica, para estabelecer uma comparação.

    Abraço.

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  3. A tua opinião deixou-me curioso. É um filme, sem dúvida, a descobrir proximamente, na obra de Haneke.

    Cumprimentos,

    Gonçalo Lamas

    cineglam7.blogspot.com

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  4. Gostei do texto, muito bem. É dos meus filmes preferidos e um dos melhores da passada década. O maior de Haneke, depois da sua obra-prima (O Sétimo Continente). Já vi tudo que havia para ver do realizador e seguramente é aqui que ele se une, atinge a subtileza mas crítica e objectivismo que procurou sempre. E aqui encontra também a sua poesia, por assim dizer. Adoro.

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  5. GONÇALO: Tens mesmo de ver, é perfeito, é um filme perfeito.

    FLÁVIO: Perfeito, como disse, e poético, como dizes. Também é dos meus filmes favoritos e, do Haneke, também é o que gosto mais a seguir ao Sétimo Continente, apesar de me faltarem algumas obras do realizador - mas esses ocupam um lugar de destaque, juntamente com outros, na nossa tal infinita lista.

    Abraço.

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  6. Haneke é um génio. O meu filme preferido dele é obviamente o FUNNY GAMES (a versão original, não a americana), mas este CODE INCONNU é bastante bom também. E se falarmos de interpretações, a de Huppert em LA PIANISTE é qualquer coisa de magistral e de longe a melhor em todos os filmes do Haneke.

    Mas sim é claramente um dos melhores de 2000.

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