Sunday, February 20, 2011

Pequenas críticas




NEVER LET ME GO
(2010)

Infelizmente, pelas duas actrizes, das quais gosto muito, este foi mais um historiazita de amor lamechas, cheia de clichês, na sua grande parte aborrecido. Estamos à espera de ver uma grande corrida pela vida das personagens, envolta numa aura de nostalgia em relação a um segredo do passado e tudo acaba por redundar no típico triângulo amoroso que atravessa o percurso da infância até à idade adulta, com muito arrependimento sem conflito à mistura. Um argumento que estruturalmente também é muito fraco (começa com uma voz-off que só pede que desliguemos o filme) e que nem a belíssima fotografia consegue salvar.


THE TOWN / A CIDADE (2010)

É curioso que é o próprio Ben Affleck o grande responsável por tudo de bom e mau que acontece no filme. Uma realização exímia, com cenas de acção muito bem filmadas (especialmente na primeira metade), com a agitação e os confrontos físicos a serem captados com uma sensibilidade urbana bastante próxima das personagens, graças aos planos maioritariamente médios para cima e a uma montagem bem planeada. Porém, também é ele que protagoniza a peça, fazendo um muito mau trabalho (sem qualquer emoção) e, pior, é ele que escreve o argumento, repleto de clichês, com uma premissa completamente banal, um desenvolvimento paupérrimo e personagens desinteressantes. Bastante fraco.


UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES (2010)

Um filme extremamente aborrecido, com uma história particularmente chata e mal tratada, diálogos de embalar (diga-se, adormecer), imagens que não conseguem atingir qualquer estado de onirismo que nos faça esquecer a narrativa a que não estamos a assistir. Ao ganhar a Palma de Ouro, foi coloca-lo num patamar com outras obras que se deveriam sentir ultrajadas.


SCOTT PILGRIM VS THE WORLD (2010)

Interessantíssima a transposição dos gráficos de videojogo para o filme. Extraordinários os cortes feitos aquando da sua deambulação afecciosa, grande trabalho de montagem. O argumento tem alguns (poucos) rasgos de genialidade (ex: as espadas, no final), outros interessantes, mas é, em geral, pautado por desinteresse (pior, por repetição) e cenas mesmo estúpidas. Belo trabalho de Cera.


LOLA (2009)

Achei incontestável o talento de Mendonza para a captação da pobreza e da sua conjugação com a natureza, de forma belíssima- o tom, a forma como filma a chuva, a precariedade, a soturnidade húmida daquelas vidas. No entanto, as avós apenas conseguem entreter até se tornarem aborrecidas, já que, por trás de uma premissa excelente e de uma câmara instável que faz antever um retrato de uma insuficiência material e emocional, se encontra um argumento chato, demasiado parado, em que mais tempo é ocupado sem nada a acontecer do que o contrário, em que pouco acaba por nos tocar.


DES HOMMES ET DES DIEUX / OS HOMENS E OS DEUSES (2010)

Parte de uma história verídica que faz adivinhar um grande conto de coragem e um certo misticismo, derivado do retrato de fé em que também teria de se basear. Falha e desilude. Recheado de cenas desinteressantes e inúteis, o filme é injectado com um ritmo lento e contra-progressivo, tentando salvar-se através da associação de uma fotografia (normal, diga-se) de um estado de certa pobreza, a uma sucessão de acontecimentos sem particular ligação dramática, a diálogos que às vezes roçam a poesia forçada (mas que, de geral, não estão maus), a cânticos gregorianos que pretendem trazer uma aura cujas vibrações vocais não conseguem suportar.


ENTER THE VOID (2010)

Um magistral e genuíno exercício de experimentação cinematográfica, uma autêntica e dopante viagem por cores, formas, luzes e texturas. Perde porque o tema (a ressurreição; a libertação da alma - quem nunca imaginou como seria ficar a ver o mundo que se deixa, após a morte ?) é tratado com certo desprezo, fruto da pujança visual que creio Noé sabia que ia conseguir, entregando-se a um voyeurismo que, sendo necessário, acaba por se tornar forçado, culminando numa terrível meia hora final, autênticos minutos de filme pornográfico.


ANIMAL KINGDOM (2010)

De uma excelente premissa parte um argumento nervoso e indeciso. Podia ser uma grande história, mas porque nunca há uma convicção em direccionar o que é importante (a vingança contra a polícia; a vingança contra os "tios"; a vingança contra J; a relação de J com a mãe e a avó; a vingança pela morte da namorada; entre outros - atenção: poderiam ser abordados alguns deles ao mesmo tempo; nunca todos, como se pretende), tudo fica a meio gás, tudo se perde em deambulações de motivações, desejos, obstáculos de personagens. Jacki Weaver está bastante bem. A realização deixa a desejar com vários momentos slow-motion video music please cry.


ALICE IN WONDERLAND / ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010)

Extravagante, extravagante, no guarda-roupa, nos cenários e na maquilhagem; outra coisa não seria de esperar da adaptação de Tim Burton do peculiar conto fantástico de Lewis Carrol. Mas fica-se por aí a sua faixa de interesse, redundando numa versão da história (diferente da original; quase uma sequela) com um ritmo demasiado visto e com cenas demasiado forçadas, refugiando-se no "sonho" como tapa buracos para vários problemas de argumentos não-resolvidos.

7 comments:

  1. Bem, levaste tudo à frente. Só vi os dois primeiros: o Never Let Me Go foi uma estopada de se ver. O The Town gostei bastante, e, apesar de não reconhecer grandes méritos ao Ben Affleck como actor até achei que não esteve assim tão mal...

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  2. Ahah, calhou um pouco, não os juntei assim de propósito. Faltam ainda aqui algumas críticas de filmes de 2010, mas que acabaram por ser considerados nos meus tops, a aparecer aqui no blog durante esta próxima semana.

    Sobre esta lista, há aqui filmes bons. Ao "Enter the Void" e ao "Scott Pilgrim vs The World" ainda dei um 7/10.

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  3. Dos que vi:

    -The Town: finalmente encontro alguém que partilha a minha opinião! Ben Affleck como protagonista "estragou" praticamente o filme...como é possível não expressar qualquer emoção? Gostei de alguns momentos mas foi um dos filmes que mais me desiludiu este ano...

    -Scott Pilgrim vs The World: adorei! Acho que é necessário assistir de forma descomprometida...mas aquele ritmo frenético e alucinante transporta-nos de imediato para o ecrã, tem boas interpretações (Cera, Winstead, Culkin, Wong), bons diálogos até e one-liners memoráveis!

    -Alice in Wonderland: eu sou suspeita que sou uma fã inveterada de Burton :p ...ainda assim admito algum excesso nos meus elogios, à altura da minha crítica; contudo, gostei imenso do filme, não estando no melhor de Burton, acho que mantém o seu espírito; a nível visual, é um deleite e também nos oferece boas interpretações/vozes, principalmente Boham Carter e Alan Rickman...

    Dos que não vi:

    -Enter The Void: depois de Irreversible, preciso de uma pausa indefinida a Noe...
    -Tenho alguma curiosidade relativamente a Never Let Me Go
    -Surpreendeu-me a tua crítica a LOLA e a UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES...mas apenas porque tenho a ideia que a crítica internacional e nacional lhes tinha sido muito favorável (Palma de Ouro incluída, não é?)

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  4. CATARINA,

    Obrigado pelos comentários ;)

    The Town: Achei mesmo mau, infelizmente. Aquela história ... Mas grande talento na realização.

    Scott: Tem óptimos momentos, mas outros que coiso.

    Alice: Esteve muito bem o Rickman e a Bonham ;)

    Enter: Fica à vontade, não tem nada a ver ;)

    Os dois últimos: Nem sempre se pode ouvir a crítica. Não quero dizer que os filmes não sejam bons; eu não os acho bons. Mas a crítica muitas vezes é pretenciosa, etc.

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  5. Ah em relação aos dois últimos filmes o meu comentário foi apenas pelo facto de ter ouvido falar bem deles...mas concordo contigo quando dizes que nem sempre se pode ouvir a crítica (tanto nos casos positivos como negativos) e ainda mais quando dizes que é pretensiosa...eu acrescento por vezes elitista!
    Ficam as recomendações ;)

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  6. Ena tantas críticas! Em relação ao The Town, já o defendi no outro post.
    Agora nos que já vi (Scott Pilgrim, Lola, Dos Homens... e Alice), discordo do que dizes dos dois primeiros. O primeiro achei bastante original, na forma como são utilizado os elementos dos videojogos nos cenários. Já o Lola, achei um filme muito bom e o facto de ser bastante parado tem um pouco a ver com a história.

    Nos outros dois, o Alice foi uma das maiores desilusões do ano passado. Sempre pensei que o Tim Burton conseguia fazer melhor com aquele universo. Acho que tem demasiada exuberância e acaba por se perder. O Dos Homens é chatíssimo, foi dos filmes que mais me custou aguentar acordado na sala de cinema.

    Cumprimentos.

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