
Foi com desilusão e frustração que abandonei a sala de cinema ontem à tarde - pela expectativa com que ia e pelo potencial que continuo a achar que o filme poderia ter tido.
É de extrema audácia cumprimentar a audiência com um aviso literal de que vai ver uma peça sobre a "condição humana" ("Condição Humana I - Duas Mulheres"). Não fosse o Homem um ser tão complexo, na sua difícil simplicidade (e tudo isto nos enrola num infinito turbilhão de paradoxos - mas é assim mesmo), tão profundo, tão multidimensional, tão heterogéneo nas personalidades que constituem a sua essência de "humanidade" e não haveria arte. O que faz o cinema, a música, a pintura ou a literatura se não interpretar o Homem, quer seja a sociedade, quer seja o autor ? Uma análise, uma fantasia, uma motivação.
No geral, qualquer tipo de filme pode tratar a condição humana. Se La Dolce Vita, de Fellini, ou Blow Up, de Antonioni, o fazem de forma absolutamente magistral, de forma mágica, de uma serenidade e uma profundidade inacreditáveis, em relação à alienação e à superficialidade da vida moderna, alguém poderá negar que Gladiator, de Ridley Scott, retrata, de forma obviamente pathosiana, a vingança como móbil de acção do ser humano ?
A questão é que nenhum destes filmes nos brinda aos seus primeiros segundos com tal intenção, algo que, a acontecer, podia resvalar em mau resultado e culminar no qualificativo de "presunção".

João Mário Grilo fez questão avançar de imediato que queria fazer um retrato da mulher. Foi impossível não colocar a fasquia mais alta. Não sei se por o ter feito ou não, foi impossível conseguir gostar deste filme, apesar de o achar recheado de excelentes ideias, de óptimos pontos dignos de desenvolvimento.
A dicotomia e fusão entre a sensualidade de Mónica e o desgaste emocional e frieza de Joana, uma cumplicidade estranhamente equilibrada entre o desejo carnal e uma partilha das dores de passados enterrados, a imprevista, impossível e ao mesmo tempo inevitável relação lésbica, a fuga do cárcere de uma deprimente e vazia rotina com destino no prazer e na luxúria inconsequentes. Tudo abordagens em relação às quais senti ser feito um esforço de tratamento, abordagens que, assim ditas, tornam o filme extremamente aliciante. Poderia ser uma belíssima e crua análise freudiana à vida de Joana e Mónica.
Não é o trabalho do realizador que condeno, mas sim o péssimo argumento. Apesar da imprescendibilidade de retratar a fraqueza da relação entre Joana e o marido, grande parte dos primeiros 50 minutos são inutilmente dedicados à estratégia económica da empresa do segundo. Foi tempo que podia ter sido aproveitado para aprofundar a tristeza, o desgosto, a solidão interna de Joana e o sedutor, quente, suave e luxuoso escape que vem a ser Mónica. Em vez disso, temos um flirt totalmente forçado e ridículo, cenas de mms (foto e vídeo) que estragam o filme em termos estéticos, cenas que parecem cortadas a meio, perguntas que ficam sem resposta (quem é o homem que tantos conselhos dá a Joana ?), um erotismo que, em vez de bonito, quase se torna rasco. Praticamente não assistimos a um crescer de uma relação, a um brotar confuso e, enquanto calmo, também exuberante de sentimentos entre as duas mulheres - antes, tudo é superficial, falso, sem sabor. Não há dimensão, fluidez, coerência nem credibilidade.
Já agora. Romana ?
Era o que se esperava, com aquele trailer...
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