Monday, July 5, 2010

Os Filmes dos Presidentes III - Mário Soares

O Milagre de Salomé data de 2004 e é a primeira longa-metragem do director de fotografia Mário Barroso, adaptação do romance homónimo de José Rodrigues Miguéis.


O trabalho de mis-en-scene é o ponto forte do filme, com cenários, guarda-roupa e decorações a criarem uma agradável jornada até 1917, em que a um discreto jogo de cores quentes e douradas se alia um curioso balançar entre a estética de uma monarquia moderna de século IXX e os novos paradigmas que chegam no pós-anos 20. Classifica-lo assim não o exonera de graves erros de percurso, mormente quando não posso deixar de fazer uma comparação com O Leopardo (escolha de Jorge Sampaio) - enquanto que neste todo o ambiente contempla não só uma adequação e beleza visuais mas também uma intenção verdadeiramente narrativa e propulsora de uma mensagem e sentimentos, a obra portuguesa fica-se por uma certa inevitabilidade estética, um dever de retratar uma época a que se faz referência, uma coerência apenas artística e não narrativa.

Outro problema será o facto de os diálogos serem perfeitamente banais. Significa isto que qualquer pedaço de conversa do filme poderia ter sido tida actualmente, em pleno início de segunda década do século XXI, por duas pessoas da classe média - não há uma adequação semântica à época, não há uma adequação idiossincrática (ou mesmo de sintaxe) à condição das pessoas. É negligência que não confere ao filme nada senão uma certa falta de credibilidade e coerência, impedindo o espectador de se envolver na estória, nunca deixando de ter noção de que está a ver um filme feito quase 100 anos depois daquilo que retrata.
Não compensando esta falha, o resto do argumento acaba por resultar num trabalho interessante, com uma estória original, ainda que com certos pontos por vezes desconexos e que careceriam de maior aprofundamento.


O Milagre de Salomé retrata um Portugal consumido pela instabilidade económica, política e social, à beira da revolução sidonista e a gerar as sementes do Estado Novo, em nome da "restituição da ordem". É entre um interesseiro director de jornal e deputado da Assembleia (Paulo Pires), um banqueiro riquíssimo e solitário (Nicolau Breyner), um General que se espera que seja a cabeça da revolução, mas que nunca aparece, fazendo-se sempre representar pelo Tenente Brás (Filipe Duarte) e um jovem jornalista, idealista e talentoso (Ricardo Pereira) que se vai decidir o futuro do país - através da mentira, da manipulação das massas e das movimentações do exército ou através da verdade, do consenso e da consciencialização.



Como invisível mas estruturante tronco de todas estas relações e operações, surge Salomé (Ana Bandeira), que começa como prostituta de luxo e acaba morta, depois de involuntariamente forjar o "Milagre de Fátima" e conceder aos interesses da igreja e das forças militares revolucionárias um forte móbil para levar a cabo os seus interesses. A sua beleza é incontornável e é por isso que cai nas graças de Cerqueira (o banqueiro) - a quem revigora a existência, voltando a destruí-la quando o abandona - e de Brás (o Tenente) - causando-lhes sucessivos ataques de raiva. Porém, a certa altura, Salomé não mais pode negar o amor que sente pelo jovem Gabriel e é com um bonito manto azul aos ombros, com o qual gostava de fantasiar ser Nossa Senhora (por quem revestia particular devoção) que tenta uma fuga da realidade, viajando até à Cova da Iria, onde nascera.

É nesse preciso momento que encontra duas meninas e um menino, debaixo de uma azinheira, que, virando-se, deparam-se com uma lindíssima mulher, de vestes claras, com um manto azul sobre a cabeça e as costas. Eis que acontece a primeira aparição da Virgem Maria aos três pastorinhos, fenómeno que a imprensa aproveita para preparar a revolução e que culmina no assassinato de Salomé e Gabriel (defensores da verdade), protagonizado por Brás, mediante astúcia de Mota Santos (director do jornal e deputado). É algures nesta parte do filme que encontro um erro crasso e que praticamente deita todo o filme por água abaixo: é através das imagens dos vários acontecimentos que percebemos que não houve aparição de nenhuma divindade, que era apenas Salomé (aliás, é essa a doçura do cinema - a comunicação visual). Era completamente escusada uma cena em que Gabriel diz algo como "O quê ? Então afinal não apareceu Nossa Senhora ? Ah ! Afinal eras tu Salomé !". Enfim.

Foram boas as interpretações dos vários actores (pena ainda não termos voltado a ver Ana Bandeira), ainda que todas as suas personagens, salvo Salomé, tenham sofrido de completa superficialidade e tenham sido carimbadas com comuns estereótipos, eventualmente graças a um argumento relativamente complexo e por vezes ligeiramente desconexo. São vários, como posso concluir, os pontos fracos do filme, eventualmente mais do que os pontos fortes, ainda que ache que poderia ter saído daqui um aliciante retrato histórico-fictício sobre Portugal e uma reflexão interessante sobre as influências que uma pessoa pode ter num país, que um evento pode ter numa nação, sobre a sua veracidade, sobre o seu fundamento.

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