Friday, October 1, 2010

Embargo (2010)


Andava a acumular-se a lista de filmes portugueses que tinha de ver, algo que me deixou muito contente - num só mês, Setembro, estão cinco filmes portugueses nas salas. O trailer de Embargo, baseado na obra homónima de José Saramago, era demasiado delicioso, não podia mesmo deixar passar.


O bom trabalho desta película começa na direcção artística e na fotografia. Sob um filtro entre o amarelado e o acastanhado, um quase-sépia, mais suave e gasto, entramos no Portugal da década de 70, em plena crise petrolífera. O uso das cores é complementado por uma mise-en-scene desértica, deslavada, velha, por vezes podre, usada, enferrujada, e tudo contribui para a divertidíssima atmosfera seca e poeirenta em que se desenvolve o filme. A câmara, num estilo que gosto muito, seguidora, atenta, e sempre com leves movimentos, raramente estática, capta muito bem o calor e aridez da paisagem, ora seja humana e mal tratada, tão pobre como as pessoas que não têm pão nem leite graças à impossibilidade da distribuição, ora seja natural e inultrapassável. Para isto não pode deixar de contribuir a iluminação e a caracterização dos actores, que resultam num belo trabalho de retrato do calor insuportável, do sufoco, do suor que se vive e sente ali, em tamanha claustrofobia - sem meios para sair da escassez, sem caminhos para sair dali (o filme passa-se em poucos quilómetros quadrados), sem hipótese de sair do carro.


A banda sonora que nos acompanha é um dos pontos mais fortes desta obra. Adequadíssima, e geralmente bem colocada (apontaria duas ou três excepções), alia-se ao argumento para fazer crescer aqui uma ironia tão seca como os cenários, que não gera gargalhadas mas que torna inevitáveis os esgares de sorriso de orelha a orelha.

Mas, como vinha sendo dito, o grande destaque vai para o maravilhoso argumentos e para os seus diálogos. Com uma primeira parte que admito ter sido mais parada (o que cansou algumas pessoas que viram o filme comigo), Tiago Sousa, o guionista, conseguiu fazer uma apresentação muito coerente e serena - funcionou mesmo, para mim - da personagem principal, imersa numa ingénua e por vezes melancólica esperança de resolver os seus problemas financeiros e pessoais, primeiramente com mínima dignidade, mais tarde com resignação e desespero total face ao desastroso circunstancialismo - este é inexplicável e não há interesse na sua explicação. Foi evolutivo, fluído. A originalidade da premissa foi, de resto, bem estruturada, bem aproveitada e resultou num produto final hilariante, com diálogos excelentes, tornando esten um dos meus filmes portugueses de eleição.


Não posso deixar de destacar a magnífica prestação de Filipe Costa e os poucos minutos de José Raposo. Algumas críticas também não posso deixar de apontar, no geral, nomeadamente no que toca a alguns pontos da montagem (com cortes bruscos e, a meu ver, pouco significativos, ou sem grande timming) e a alguns grandes planos que foram feitos, para mim sem grande significado, apenas desequilibrando a estética das cenas.

4 comments:

  1. Eu só irei ver hoje...estou mesmo muito ansiosa!

    Nem li a tua crítica mas claro que passarei cá novamente! ;)

    Abraço

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  2. Pedro Emanuel CabeleiraOctober 1, 2010 at 11:46 PM

    Excelente comentário ao filme, fiquei mesmo na expectativa. O trailer pareceu-me interessante, e agora tenho mesmo de o ir ver. Quanto aos grandes planos sem significado é um dos aspectos em que alguns filmes portugueses pecam, essa utilização sem sabor do grande plano por vezes pode estragar uma cena e quebrar por completo o interesse no filme.

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  3. Nem sei o que esperar de 'Embargo'. Mas deixaste-me ainda mais intrigado. Se em termos da técnica audiovisual, o filme resulta bem, já é um óptimo começo. Mas o maior desafio, e o que tenho mais dúvidas, está no argumento, que tem a tarefa de 'esticar' a narrativa de Saramago. Nada como uma ida ao cinema para me tirar as dúvidas.

    Cumprimentos,

    Gonçalo Lamas

    cineglam7.blogspot.com

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  4. Que filme sublime, com uma magnífica interpretação de Filipe Costa e os excelentes argumento e banda-sonora!

    Que seja um bom prenúncio e também uma boa inspiração para o nosso cinema! ;)

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