Sunday, September 5, 2010

Os melhores das décadas, 2000: Werckmeister Harmonies

Qual é o caminho do Homem, qual foi e qual tem sido, qual será, nessa árdua tarefa que a ele lhe cabe, a de ser Humanidade, a de carregar nos genes e na alma a missão da socialização, da vivência comum, da complementação, da procura de um lugar no vácuo do tempo ? E se houver resposta, haverá como transmiti-la ? Creio que Béla Tarr terá sofrido uma epifania do intelecto e dos sentidos, reflectindo sobre estas ou semelhantes questões, para poder criar tão magnífica e deslumbrante obra, tão bela e profunda tentativa de nos transmitir as tais respostas ou de nos emocionar com as perguntas.



A primeira sequência é linda, perfeita, marcante do ritmo poético e filosófico com que se desenvolvem as seguintes duas horas de película - um rapaz encena, num pequeno bar, com os presentes, os movimentos de rotação e translação da Terra, culminando numa alusão a um eclipse, numa prestação teatral de impressionante beleza, partindo em seguida por uma estrada cada vez mais escura, distanciando-se cada vez mais da câmara. O que era tudo isto ? "Vou mostrar-vos o que é a imortalidade.". Essa, por sermos inevitavelmente mortais, não passa da nossa existência contínua, uns após os outros, fecundante, sucumbida aos desígnios do cosmos. Mas hoje, hoje vivemos essa existência em escuridão, com uma lua em frente ao nosso sol, e contentamo-nos com a distância que aumenta cada vez mais entre todos nós.


Sempre a preto e branco, com intensas e emocionalmente dramáticas sombras, com uma fotografia muito bonita, de magistrais longas e ininterruptas filmagens, clarificando por diversas vezes o contraste entre o background e o foreground, recurso estético que se faz acompanhar pelas mutações de interesse da câmara (que, ao focar uma personagem, passa a interessar-se pelo discurso de outra), Tarr cria uma sensação de profundidade, dimensão, de globalidade dos Homens e dos problemas, de partilha de contextos. A baleia que vem para a cidade e que acaba por ser a gota de água que despoleta a rebelião da população, não é mais do que um símbolo da magnanimidade e poder do desconhecido e misterioso (a baleia é conhecida por ser um animal estranhamente parecida com o ser humano, em certos aspectos, algo que fascina os cientistas). A governação que já era instável, enfim, dissolve-se, e origina-se um motim popular, que não é mais do que o cepticismo contemporâneo face à reflexão e à descoberta, para o qual contribui a voz do "profeta da desgraça", como tantos que existem hoje em dia.


É por esta altura que surge uma das mais maravilhosas cenas a que já assisti. Uma filmagem longuíssima, que talvez ultrapasse os dez minutos, leva-nos a seguir um grupo de revoltosos que destroem uma enfermaria, sem piedade pelos moribundos, e, enquanto os sons do metal a partir-se são perfeitamente audíveis, não há uma ordem vocal de ataque nem tão pouco um aflitivo grito por ajuda - uma angústia abafada. Tudo termina quando entram numa sala luminosa e encontram um velho, magro, despido, de frente para eles. Uma bela música volta a tocar e batem em retirada, primeiro como sombras negras, depois como sombras negras desfocadas, caminhando uma por uma, em direcção ao seu purgatório. É a vitória da misericórdia, da inocência biológica e espiritual do homem, o seu envelhecimento, apenas possível porque aqui estamos todos, porque lutamos unidos, ou como viria subindo a esperança média de vida ?


Porém, ao fundo, o fogo e o fumo continuam. Duas crianças insistem em destruir uma encantadora melodia através do bater de tachos e paus e de bramidos de "Serei duro contigo !". Sim, será duro, especialmente enquanto a corrupção dos costumes, a arrogância dos propósitos e a falta de dignidade se sobrepuserem a uma acção conjunta - ou não tivesse a nossa personagem principal sido enganada, usada, concreta e metafísicamente, para provocar todos os estragos, deixando de ser um lutador ("Ainda não acabei", suspirava no início), para passara a ser um vegetal, um incontestante, um louco sem remédio (imóvel, sem palavras, no final).


E a baleia ? Bem, a baleia continua lá, no meio dos escombros. À espera que a vejam, que a compreendam, que a procurem.

É com brilhantismo e genialidade filosófica e artística que Béla Tarr cria um belíssimo retrato da necessidade da luta do Homem pelo virtuosismo da organização da sua sociedade, pelo brotar, montar e fluir de uma dourada harmonia comunitária, não em termos físicos, infra-estruturais, mas sim noutras dimensões, grandes dimensões, como é grande esta alegoria moral, ética e política. Pura poesia.

4 comments:

  1. Pedro Emanuel CabeleiraSeptember 5, 2010 9:15 PM

    Comentário brilhante ao filme de Tarr, empolgante e sucinto. Nunca vi nenhum filme de Tarr, mas sinto-me intrigado em descobrir a sua obra. Por acaso vi no youtube a cena inicial do sistema solar encenado, e é um long shot fenomenal. Anseio realmente por conseguir ver um filme seu.

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  2. PEDRO: Muito obrigado. Foi também a minha estreia em Béla Tarr e já fiquei fã.

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  3. Belo, profundo, perfeito - acho que são as três melhores palavras que conseguem definir esta gigantesca obra-prima, uma das melhores da década e de todo o Cinema visto. E misterioso, sobretudo, muito misterioso - como a própria vida o é, aliás.

    Já te tinha dito mas como sou simpático reforço por escrito ;): mts parabéns pelo texto.

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  4. FLÁVIO: É mesmo tudo isso. Essas três palavras significam tudo e, ao mesmo tempo, são inúteis e não significam nada. Um puro ópio.

    Muito obrigado pelas tuas palavras ;)

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