Thursday, August 26, 2010

Os melhores das décadas, 2000: Dancer in the Dark

Adorado por muitos, odiado por tantos outros, dicotomia que nada mais faz do que evidenciar que tudo se passou dentro da normalidade, neste trabalho de Lars von Trier, que acabou por vencer a Palma de Ouro, no festival de Cannes. Por mim, não deixou de ser um dos melhores do ano e, como tal, dos melhores da década.

Dancer in the Dark é uma estória de sofrimento e sacrifício pessoal, na esfera da maternidade e do sonho/ambição, aqui retratada de forma peculiarmente paradoxal, pois todo o melodrama, intenso e emocional, é filmado de forma rotineira, pouco preocupada, com uma arrogância própria face aos dilemas da vida. É isto assim graças ao falso cumprimento do famoso Dogma 95, que, se já não havia sido respeitado à risca em "Os Idiotas", muito menos o foi aqui - desta vez, existem cenas de violência, trabalho de luminosidade, música não-diegética, efeitos em computador e câmara estática.
Por entre uma câmara instável, aparentemente amadora, com pouca saturação, através de uma tentativa de reduzir os efeitos pós-produção ao mínimo, assistimos à magistral performance da cantora islandesa Björk, uma mãe pobre e cega, que luta para se sustentar a si e ao filho, procurando juntar dinheiro para lhe pagar uma operação aos olhos, que o resgate do destino que ela já arduamente trilha, e que enternecedoramente mantém acesa a chama de um dia vir a ser uma estrela de um musical.



Sucedem-se os acontecimentos dramáticos que acabam por destruir a vida de Selma, acompanhados por momentos musicais belíssimos (não de uma forma complexa, gloriosa e musicalmente épica, mas sim de forma simples e passageira), em que as cores gastas dão lugar a uma luminosidade extra e em que a câmara finalmente estabiliza por uns segundos, produzindo-se, desta forma, um acumular de tensão sofrível, efemeramente amparado pela resistência da esperança e da ingenuidade da personagem principal, e, sendo a emoção despertada me nós, espectadores, amparado também pela nossa própria piedade. No entanto, o crescendo sente-se, e não sendo aflitivo, não deixa de ser perceptível, culminando numa última cena aterradora, comovente e gritante, que opõe a melodia da vida e do triunfo do amor ao vácuo do silêncio mórbido e repentino.

Ainda assim, não é o meu favorito do autor.

12 comments:

  1. Adoro este filme. Foi o único que conseguiver dele.

    Oh Diogo, andáste desaparecido tantos dias porquê?

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  2. Acabei por ter uns imprevistos dias de férias aqui pelo meio e o acesso à internet era complicado (só deu mesmo para vir escrever sobre o Hable Con Ella), ahah :p

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  3. Finalmente tenho tempo para dar um saltinho aos blogues ;)

    Eu adoro este filme. E adoro a Björk. E entre ela e a Ellen Burstyn (REQUIEM FOR A DREAM) eu ia ter grande dificuldade para me decidir a quem dava o prémio de Melhor Actriz.

    Este filme é fantástico. Ponto final. E gostei da crítica.

    Abraço,

    Jorge Rodrigues

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  4. Concordo. É um dos filmes maiores da década, mas claramente não é para todos. É, com certeza, o filme que mais me repugnou, me indignou e me emocionou.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD – A Estrada do Cinema «

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  5. AH, que falha. Nem falei da Björk. Para mim, um das maiores interpretações femininas a que já assisti.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD – A Estrada do Cinema «

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  6. JORGE: Concordo na indecisão, mas continuo a preferir a islandesa.

    ROBERTO: Dos do ano 2000 ou de Lars ?

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  7. Não o vi, ainda nem conheço nada do Lars von Trier, que se diz ter uma obra bastante controversa, mas tenho curiosidade!

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  8. CATARINA: Aconselho, tem obras fantásticas. E a que vem aí promete imenso, e para isso basta o título: "Melancholia" (se conhecesses a sua obra, percebias ;) ).

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  9. Ainda ando para ver, penso que gostarei.

    Abraço
    Cinema as my World

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  10. Gosto da Bjork e da música. De resto, o filme é claramente fraco. Ainda bem que o Lars von Trier fez, ainda na década passada, uma obra-prima chamada Dogville ;)

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  11. De sempre! Uma das maiores interpretações femininas da História do Cinema ou, pelo menos, de todos os filmes que vi até hoje e dos quais tenho memória ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  12. FLÁVIO: Não o classificava como "fraco", mas é dos menos bons. É o que menos gosto, fora Epidemic. Sem comparação, lá está, com Dogville ;)

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