Friday, February 11, 2011

The Fighter / O Último Round (2010)

O novo filme de David O. Russel não fez por mim mais do que já carregavam as projecções das minhas expectativas: noventa minutos para ver Christian Bale garantir, finalmente, um Óscar.

Tem uma realização interessante - câmara à mão, com a instabilidade que também caracteriza a família que estamos prestes a conhecer; estilo altamente documental, a fazer até um paralelismo bem conseguido com o documentário inicial sobre Dicky, que se transmuta na história da vida de Mick. Há um bom arranjamento da qualidade da fotografia durante os combates, conferindo-lhes um granulado de memórias televisivas gravadas em vídeo e funciona bem a opção pelo realismo, face, por exemplo, ao dramatismo de "Raging Bull". Whalberg não está nada de especial; Bale esta excelente; Amy e especialmente Melissa fazem um bom trabalho,

O argumento é o principal problema, já que o arco da história quase não e existe (uma evolução pouco expressiva, sentida; não é sequer progressiva). Não há um verdadeiro conflito entre Whalberg e Bale, nem entre Whalberg e a família, nem entre Whalberg e ele mesmo. Os irmãos são demasiado superficiais, já que a dualidade de sentimentos e emoções que lhes deveria dar profundidade é completamente afastada (onde raio ficou a verdadeira inveja do irmão mais velho ?), culminando num conto previsível, sem sal e moralista.


A meu ver, e apesar de se basear no que se baseia, esta seria a história, não de boxe, mas de dois irmãos. A história de como dois homens, tão próximos em sangue, vivências e sonhos, lutam um contra o outro e contra si próprios para se afirmarem perante si mesmos, a sociedade e o resto da família, mas, mais importante, para conseguirem provar a si mesmos e aos outros que tudo aquilo que pretender afasta-los um do outro correrá o risco de os fazer perceber de que os seus laços são inquebráveis.

Esta não consegue ser nem uma história de boxe, nem uma história de dois irmãos.

Thursday, February 10, 2011

Io Sono L'Amore / Eu Sou o Amor (2010)

Requintado e sensual na fotografia, na direcção artística, no guarda-roupa, nos passos e gestos da extraordinária Tilda. O ritmo lento de todo o filme passa muito bem no primeiro acto, em que ficamos a conhecer a vida da burguesa família italiana Recchia, que nos estabelece as premissas da integridade, da compostura e do tradicionalismo, prontas a serem quebradas. As cores quentes do interior frente às cores frias o exterior marcam a pertença e o que está para além dela. O problema é que o crescendo de tensão que se adivinha chega tarde, desenvolve-se esporadicamente e termina mal.


Por um lado, Guadagnino coordena a câmara de forma belíssima, criando travellings e zooms intensos, conjugados com uma montagem aflitiva e espreitadora (a perseguição; o esconderijo), captando com destreza ora as deslocações e a mera existência corporal da mulher, ora os seus olhos e os seus lábios sedentos de paixão. Por outro, a maior parte do tempo é dedicada à exploração insuficiente de relações e acontecimentos que quebram o ritmo do pecado crescente que ameaça (e muito bem) surgir, não tanto a nível visual (mas também), mas sim a nível de argumento.


Esta deveria ter sido uma história da queda de uma família em virtude de uma rendição aos sentimentos. E logo aqui, surge um problema. Falamos da rendição da mãe ou também de um filho e de uma filha ? As tais relações deficientemente exploradas - ou o seriam ou não lhes tocaríamos. É a história de uma mulher sensual, imersa em volúpia reprimida, que tem um mero affair, visualmente arrojado mas narrativamente banal. Banal porque está desestruturado, porque não se encaixa devidamente na sua entrada e muito pior na saída. A coincidência, o azar que leva à morte de Edo é um clichê mais que visto e que enganou quem o escreveu, se pensou que queria dizer que "as acções têm consequências" e, citando o poster do filme, que "nunca mais nada será igual".

Wednesday, February 9, 2011

TIPOGRAFADOS MALDITOS #2


"O que teriam a dizer se algumas das maiores obras de sempre não o fossem por, pura e simplesmente, terem ficado na prateleira ? O que vos proponho é que escolham um a três guiões nunca produzidos que acreditem que dariam grandes histórias e que proponham um realizador que deveria levar o projecto para a frente."


CATARINA NORTE, de A Vida em Cenas, apresenta a sua escolha:


JACKIE (escrito por Noah Oppenheim)
Proposta de Realizador: DARREN ARONOFSKY


O retrato de Jacqueline Kennedy Onassis nos quatro dias posteriores ao assassinato de John F. Kennedy...
Um período histórico tão interessante como tumultuoso...
Um acontecimento que chocou e mudou a América e o Mundo!
Uma figura mítica dos E.U.A...
"Jacqueline Kennedy has given the American people... one thing they have always lacked: Majesty." (in The London Evening Standard)

Inicialmente ligado a Steven Spielberg e à HBO, este projecto estaria actualmente nas mãos do realizador Darren Aronofsky,
com Rachel Weiz no papel de Jacqueline Kennedy...

Darren Aronofsky? Wow! Um toque invulgar e excepcional estaria certamente garantido!

Miss Weiz? Sinónimo de classe e sofisticação!

Friday, February 4, 2011

Black Swan / Cisne Negro (2010)


Apetece-me com infinita vontade começar este pequeno comentário a trautear a fabulosa peça musical de Tchaikovsky, aqui tão bem tratada por Clint Mansell, que tal como uma boa quantidade de planos, esquemas de montagem, imagens brutais e um argumento bem desenhado não me sai da cabeça. A deixar num canto aquele que saiu por cima em Veneza, ("Somewhere", de Sofia Coppola) Darren Aronofsky chega com um novo filme de personagem (no seguimento de "The Wrestler") que não só cumpre as elevadas expectativas como acaba por surpreender.

A narrativa, considero-a subvalorizada, pela total ausência que tem conhecido em tudo o que são prémios dedicados ao argumento. Os três argumentistas criaram aqui, a meu ver, um escrito bastante consistente, claro, muito bem estruturado, com uma excelente evolução de personagem, que polvilha por cerca de 90 páginas várias cenas que desenvolvem com grande mestria um tema que efectivamente consegue atingir o público, sem ser reconduzido a metafísica forçada.

É dentro desta personagem, Nina, que Portman tem a performance da sua vida (até agora), materializando e humanizando com forte emoção a progressão da loucura e esquizofrenia da bailarina que interpreta, viajando pela atmosfera dicotómica entre o branco da inocência e da pureza e o negro da corrupção da psique e do corpo (quem sabe da moral, com a introdução do leviano através do sexo), que resulta de um grande trabalho de lente e iluminação. Todo o filme se faz acompanhar por uma câmara à mão que ora nos introduz como mais um participante do espectáculo ou nos leva em constantes tracking shots instáveis e perturbados, tal como está o estado de espírito da Rainha dos Cisnes, a cada simples passo que dá.

É também aqui que Aronofsky volta a provar que é um dos maiores mestres do close-shot, do shot/reverse-shot (a cena de luta entre Portman e Portman, no final, por exemplo) e do plano pormenor da actualidade. A captação das expressões das personagens (nomeadamente de Nina e da mãe) e dos desenhos das acções das suas mãos (que por vezes ainda se faz extraordinariamente acompanhar pela mesma câmara tremida, como no hospital; que grande recurso!) criam uma neblina de tensão e suspense, num género hitchcockiano mais dinâmico, que se complementa com a utilização dos espelhos e dos reflexos como metáfora do fragmento de personalidade (belíssimas imagens, no camarim; no metro), com os back-shots que acompanham Nina num caminho que nunca conhece o que está na porta seguinte e com uma montagem ritmada, amedrontante (repentina) e perturbantemente contínua (a passagem de local para local com Portman sempre no mesmo e preciso enquadramento; fabuloso).

Gostei muito do recurso ao simbolismo místico e fantasioso da loucura, da dança, do tema: os espinhos; os olhos vermelhos; as pernas; a pele; as asas.

É de valor acrescentar que as cenas de dança estão muito bem filmadas, como o plano em que há uma panorâmica com gigante arrastamento, seguido de paragem, com repetição desta sequência por algumas vezes; como o balanço entre a altura normal e o contra-picado nos travellings que vai fazendo durante os ensaios, ora afastando-se, ora aproximando-se, criando uma mística aura daquela delicada mas poderosa actividade, daquela perfeição técnica que contrasta com a desarrumação psicológica e emocional que Nina vai desenvolvendo e terá de atingir para conseguir protagonizar o Cisne Negro.

E o final ? Esse, épico. Um dos melhores de sempre.