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Friday, March 4, 2011

Pulp House

Por problemas técnicos, limito-me a deixar o link (cliquem na imagem). Vale a pena.

Friday, December 24, 2010

A Análise da Cena, no. 4 - a crise de identidade

Professione: Reporter, Michaelangelo Antonioni (1975)

Num filme marcado por alguns dos mais belíssimos movimentos de câmara a que já assisti, esta cena final comporta o melhor de todos. Sete ininterruptos minutos de uma viagem por tudo o que nos foi contado, por todo o tema que foi desenvolvido - a crise de identidade de um homem fugido, escondido noutro, sem sabermos porquê (apenas por isto peca o filme). Sem artifícios de montagem, sem manipular o tempo, confinados à realidade dos próprios segundos, divagamos por dentro e por fora; ora está, ora não está; ora vivo; ora morto. Como todo o filme. Escapou debaixo dos nossos olhos, numa extraordinária atmosfera de mistério e suspense.

Saturday, October 23, 2010

A Análise da Cena, no. 3 - o peso da irreversibilidade

Em Irreversible, o filme é contado da frente para trás, numa estrutura fragmentada que se assemelha a Memento. Contudo, se no filme americano isso cumpre a sua função ao envolver-nos na complexidade e na construção das imagens e sequências da memória, num genial desafio de conexões, aqui, Gaspar Noé apenas pretende (e consegue) deitar-nos num autêntico poço sem retorno, lançar-nos numa estrada de nojo e violência que vemos destruir tudo o que nos é querido, deixando-nos a assistir, completamente impotentes, estátuas da incompetência. Porque tudo de horrendo já se passou e nós apenas caminhamos para trás, para quando tudo era flor e perfume, sabendo que para trás não interessa e que queremos voltar para a frente e evitar mais mutilações de corpo e alma. Esta cena é um climax que acontece a meio do filme, um momento de autêntica claustrofobia selvagem, de terror de carne e sangue, naquele profundo e gélido corredor vermelho infindável. E a câmara permanece estática, como nós, sem poder fazer nada, enquanto todo o mal do mundo se materializa à nossa frente, numa das mais nojentas acções que o ser humano pode ter.

Um aviso sério para o facto de este vídeo não ser aconselhável para pessoas sensíveis. Além disso, esta não é a cena completa, apenas um excerto - essa, dura cerca de 10 excruciantes minutos.

Link
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Sunday, October 10, 2010

A Análise da Cena, no. 2: Táxi, clientes e existência



São dois pequenos minutos, belíssimos e hipnóticos. Uma cortina de fumo alaranjada camufla a noctura divagação nova-iorquina, sob um som pesado e autoritário, até estarmos olhos nos olhos com um apático Travis Bickle. Escorrer uma suave música jazzy e nightclubish, que começa por se fazer acompanhar por um vidro molhado, e já nos sentimos a andar num veículo melancólico, a uma velocidade simplesmente necessária, deambulante. Já o ambiente soturno está criado quando conseguimos, finalmente, ver a paisagem que discorre para lá dos vidros do táxi, que circula pelas eternas estradas da cidade que nunca dorme - lá fora, tudo é pastoso, sonolento e misterioso, pela beleza das imensas luzes e cores que se escondm no negro da madrugada. E é isto o filme. Uma desgraçada, deprimida e psicoticamente reprimida caminhada pela procura de uma identidade pessoal.

Wednesday, September 22, 2010

A Análise da Cena, no. 1: O início do ciclo

Da cena, da sequência, não interessa. Fica a intenção.

Abro a rubrica, há muito anunciada, com uma das muitas cenas do épico filme O Rei Leão de que não conseguirei deixar de falar. Aliás, só sabia que queria começar com este filme. Não conseguia era escolher uma cena. Acabarão por aparecer todas.



Uma das cenas mais bonitas, de um dos filmes mais magníficos a que já assisti. São três minutos que abrem com um nascer-do-sol cor-de-fogo, em tons de vermelho, laranja carregado e um vivo amarelo, acompanhados por um fulgurante grito tribal, que de imediato nos despertam os sentidos para assistir a uma obra inesquecível. Os primeiros animais erguem-se ao som das primeiras notas, numa sincronia majestosa, numa devoção respeitável, enquanto se desenvolve a primeira música de uma brilhante banda sonora, recheada de vozes doces e misteriosas, acalentada por uma flauta belíssima, com uma letra a saber de cor. Juntam-se os sons da selva, as onomatopeias incríveis. Do céu-fogo passamos ao céu-luz, e é sob esses já estabelecidos raios de luz da manhã que vemos desfilar uma imensa variedade de fauna, da girafa que descobre o céu, ultrapassando o monte, aos elefantes que se aproximam, grandiosos, em grande plano, aos antílopes que saltitam pelo nevoeiro, num longo plano, às formigas que, minúsculas, acompanham as zebras que salpicam a água com um fervor caloroso. Daí, seguimos Zazu até ao imponente Rei Mufasa, para onde também converge Rafiqui, cuja mística é-nos logo apresentada pelo corredor solene que o reino animal lhe faz, que tem como fundo uma brilhante luz, e assistimos ao emblemático baptismo do filho do rei. Fabuloso crescendo da música simples, criança, mas bonita, tal como Simba, voltando a transformar-se num intenso ribombar de sonoridade quando vemos um longo plano inclinado do rochedo, primeiro passo para a evidência da sua simbologia - o trono. Terminamos com uma rotação de câmara, misturada com um ligeiro tilt, na figura do pequeno leão, introduzindo, de forma pausada uma fragilidade destinada, destinada à solenidade, à luta, à bravura, à devoção e à adoração, pois esta é a cria que será guerreiro, o rejeitado que será salvador. E eis um zoom in rapidamente cortado por um zoom out e um festejo glorificante de toda a savana, numa combinação muito bem realizada da majestade do evento em si e da própria pequena personagem. A benção do céu chega, também, com um bonito raio de luz.

Wednesday, March 17, 2010

Dead Poet's Society: "Carpe diem." (1989).



Está na hora de pôr umas rodas nisto. E parece-me bem, antes de começar com notícias e de me lançar nesta nova temporada cinematográfica, sempre com uns clássicos e uns old school pelo meio, dar a minha humilde opinião daquele que é um dos meus filmes favoritos: Dead Poet's Society (O Clube dos Poetas Mortos), 1989.

Escrito por Tom Schulman, actual Vice-Presidente da WGA (West), e realizado pelo australiano Peter Weir, o filme conta a história de um professor de literatura inglesa, numa escola secundária bastante conservadora (Robin Williams, como John Keating) que, através de uma metodologia de ensino muito pouco ortodoxa, luta por fazer brotar a criatividade, a cultura e a liberdade intelectual no espírito dos seus alunos. É o seu sucesso que dá nome ao filme, já que é Keating que motiva Neil Perry (Robert Sean Leonard, Wilson da série House MD), Todd Anderson (Ethan Awke), Knox Overstreet (Josh Charles), Charlie Dalton (Gale Hansen), entre outros, a fazerem reviver o secreto e místico clube de poesia do qual o professor havia feito parte.

Esta é, digamos, a main story. Paralelamente temos muitas outras (v.g. a relação entre Neil e o seu pai, extremamente conservador; o amor proibido entre Dalton e Gloria) que transmitem sempre a mesma mensagem, que foi, para mim, uma grande mensagem e muito bem transmitida: a valorização da liberdade intelectual, o cultivo de uma opinião crítica e de uma atitude pro-activa no combate ao sedentarismo ideológico e filosófico e aproveita a vida.

É uma história muito bem construída, com cada pormenor a contribuir para o tema fulcral do filme - um grande exemplo: ainda no início, Keating manda os alunos ler um texto aparentemente genial, de um PhD. qualquer, que adopta um método matemático de avaliação da poesia. E vai falando disso. Ao mesmo tempo, um dos alunos passa religiosamente tudo o que vai sendo escrito no quadro; até que o professor diz que está tudo errado e o mesmo aluno, sem piscar os olhos, risca imediatamente o que tem no caderno. Ou, como já referi algures em cima, a relação entre Neil e o seu pai - o primeiro, farto de ser impedido de realizar o seu sonho de representar, desobedece ao conservadorismo autoritário do segundo, sempre ciente das consequências; mas sempre ciente do que era certo - "aproveita o dia".

Neil, personagem que se assume com um grande relevo, para mim, sempre acompanhando a interpretação de Williams, acaba por se ver privado de tudo o que era importante para ele: os amigos, a poesia e o teatro. O fim é trágico (suicida-se), numa mensagem algo fatalista, mas é o que a torna firme e valiosa - num dia estamos cá, no outro já não. Carpe diem.

Não me quero alongar. Resta-me terminar dizendo que tem uma das mais intensas (arrepiei-me) cenas de cinema que já tive a oportunidade de ver (clicar) (nota: para sentirem o mesmo, ou algo próximo, não tenham dúvidas de que têm de ver o resto do filme primeiro).

Oh Captain, my captain.