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Friday, May 6, 2011

IndieLisboa'11: cobertura (dia 2) e antevisão (dia 3)

Hoje assisti à sessão do Cinema Emergente Curtas 1 e o balanço é desinteressante. Abriu com Bathing Micky, vencedora do Prémio do Júri em Cannes'10, um documentário sobre uma idosa que pertence a um clube de banhistas e que desabafa sobre as mágoas da idade, que tem umas frases interessantes (uma reflexão semelhante à que um dia fez Saramago: "Envelhecer é ver os amigos morrer.") e umas expressões curiosas, mas nada mais. Seguiu-se Tre Ore, de Itália, uma história de uma menina que tem a oportunidade de falar com o pai, nas 3 horas que este pode estar fora da prisão, condenado por homicídio. Chega a ter deixas que podiam ter dado um filme muito interessante (quando a miúda lhe pede para ele lhe ensinar a disparar), mas não está nem vai a lado nenhum. Monsieur L'Abbé ameaçou seguir na calçada das outras duas, mas conseguiu surpreender nos últimos 10 minutos (de um total de 35). Todo o tempo é ocupado com imensas personagens, uma de cada vez, cada uma com direito ao seu plano estático (às vezes mais uma aproximação ou outra), em que reproduzem as várias cartas com questões práticas sobre a sexualidade, escritas a um padre da Normandia, na década de 30. Tem deixas bastante engraçadas e consegue erguer-se sem parecer a revista "Maria". Apesar de sofrer, a meio, pela grande repetitividade, alguns dos actores trazem um sentido peculiar e permitem-nos fazer associações engraçadas entre as suas ingénuas dúvidas (sempre temerosas de Deus, da moral e dos bons costumes) e a sua caracterização física, procurando descortinar quem serão eles. A última intervenção, o satisfatório grito de revolta das mulheres, é uma chapada de luva branca na mesquinhez da igreja, e a actriz era engraçadíssima. Seguiu-se Ámár, uma animação surrealista sobre uma visita de uma rapariga a um amigo, num hospital psiquiátrico. Interessante pelo grafismo, pelo uso do som e pela intensidade psicadélica; resulta. Sur La Tête de Bertha Boxcar, mais uma de França, pareceu reunir o consenso da audiência como sendo terrível e completamente incompreensível. Terminámos com Casa, de André Gil Mata, uma curta experimental de 4 minutos. Estava a ser muito interessante, muito fantasmagórica, lembrando aquelas fotografias antigas em que há uma pessoa meio transparente, que se diz ser um espírito, até à altura em que aparece alguém a limpar o chão e um velhinho.

Para amanhã, Sábado (tecnicamente, já é hoje), destaco a repetição de Les Amours Imaginaires, de Dolan, que abriu ontem o festival, Cleópatra e O Anjo Nasceu do herói independente Júlio Bressane, Neil Young Trunk Show, documentário musical do conceituado realizador americano Jonathan Deemme e ainda o documentário de João Canijo, Trabalho de actriz, trabalho de actor, sobre trabalhar os argumentos e as personagens com os actores. Não percam ainda várias sessões de curtas, nomeadamente a Competição Nacional 1, que mostrará Os Milionários, de Mário Gajo de Carvalho, um pequeno heist film de animação, que me despertou grande interesse. E há mais: deixo o programa completo.

Wednesday, November 10, 2010

EFF'10: Encontros de Escolas de Cinema (2ª Sessão)


Decorreu durante a manhã de hoje a segunda sessão dos Encontros de Escolas de Cinema, que consistem na apresentação em público de algumas curtas-metragens de escolas de cinema de toda a Europa, em que o fomento das relações entre umas e outras é o principal objectivo.

Pude assistir a três trabalhos do INSAS (Institut Nationale Supérieur des Arts du Spectacle), da Bélgica; a três trabalhos da ECAM (Escuela de Cinema y Audiovisual de Madrid), de Espanha; a um trabalho da FAMU, da República Chega, Praga e, por fim, um trabalho da ESTC (Escola Superior de Teatro e Cinema), de Portugal.

Houve apenas uma delas, logo a primeira, de que posso dizer que gostei muito: Sredni Vashtar, do ISNAS, realizado por Alana Obsbourne. Contava uma história muito interessante, de um miúdo com fragilidades físicas reais ou, eventualmente, forjadas por uma mãe possessiva, que viva numa assustadora e gigante mansão, e que via, dia após dia, a sua infância ser-lhe negada, por não lhe permitirem sequer sair de casa. É num estábulo que encontra o espaço para ser criança e viver as suas fantasias, que, retratadas de uma forma realmente bonita e fantasiosa mas ao mesmo tempo levemente perturbante, acabam por causar a misteriosa morte da matriarca. A fotografia e o trabalho de concepção visual da cenas foi muito bem conseguido.

De resto, não gostei de nenhuma em particular e todas pecaram pelo argumento. Los Planes de Cecília, de Belén Goméz, da ECAM, evidencia o talento para o marketing, mas a história foi bastante má. Formol, também da ECAM, de Noelia Rodriguez Nesa, tornou-se aborrecida pelo tema pouco interessante e pela demasiada duração que lhe foi dada (15min), mas a tentativa experimental em que consistiu não resultou mal. Roma Boys, de Rozálie Kohoutóva, da FAMU, desinteressou-me por completo no seu tema e na forma de o contar - uma realizador/argumentista narra a sua ideia para o seu próximo filme (um amor homossexual entre romenos), enquanto vemos esse mesmo filme, o que acaba por lhe tornar o trabalho fácil mas ineficaz, já que, por exemplo, em vez de criar situações de tensão, apenas refere que "há tensão". Porém, houve quem tivesse achado bastante graça e tenha visto aqui um certo experimentalismo.

Infelizmente, o grande destaque, que o é pela negativa, vai para Quando o Inverno chega, de Jorge Jácome, da ESTC.

Saturday, November 6, 2010

EFF'10: Primeiras curtas de Roman Polanski (1955-1961)


No final da primeira sessão do Estoril Film Festival a que o A Gente Não Vê assistiu, uma conclusão ergueu-se e fundamentou toda uma já construída opinião sobre o realizador polaco, Roman Polanski: é um génio desde, pelo menos, 1955.

Foram várias as curtas-metragens a que assisti e, enquanto que não houve nenhuma de que não tenha gostado, há duas que considero que são verdadeiramente extraordinárias: Bad Boy (Dois Homens e um Armário) e A Passer By (sem tradução).

A primeira conta a história de dois homens que encontram um armário banal, cuja única particularidade é ter um espelho incrustado, que se envolvem numa série de peripécias para tentar vender o seu achado, sempre sem sucesso, acabando por sofrer castigos físicos frutos do puro azar. Tem um certo tom cómico mas o drama é especialmente evidente na cena final, um paralelismo com a cena inicial (algo que se viria a tornar algo trademark, como as mãos a tocar piano, no início e no fim do The Pianist), em que voltam ao mar, para deixar o armário, acabando por desaparecer os dois, de repente, debaixo de uma onda. Adianto que estes breves minutos nos brindam com uma cena de puro génio cinematográfico, entre outras também muito boas: um homem está a ver-se ao espelho do armário - parece que finalmente alguém lhe descobriu uma utilidade. Porém, logo a seguir, mudam o armário de sítio e por trás do armário estava outro espelho - o homem não reage e continua simplesmente a ver-se ao novo espelho.

A segunda já emana Polanski. Durante um inverno frio (algo tão bem retratado), um velho arranja bonecas. As imagens são aterradoras - braços, pernas, corpos, olhos, caras sem olhos, nem boca, nem cabelo. Muitas sombras, projectadas por uma humilde lâmpada e ainda assim desfocadas pelo fumo de um cigarro. O cuco assustador dá o final do dia e o velho sai. Ainda menos luz, quando o dono da loja, do lado de fora, tapa as janelas com pedaços de madeira. Sussurros assustadores invadem a pequena sala (são as aterradoras bonecas) e tudo começa a arder. Lá fora, neva. As pessoas passam e, na noite, apenas se distinguem duas faixas de luz (do fogo), de dentro da loja, que não são tapadas pela madeira velha.