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Thursday, June 24, 2010

Os Filmes dos Presidentes II - Jorge Sampaio

Il Gattopardo / O Leopardo (1963) é um longo mas belíssimo retrato da queda da aristocracia siciliana durante o Risurgimento, movimento de unificação da Itália.

O trabalho fotográfico é magnífico, imprimindo uma película em tons quentes (castanhos, vermelhos, laranjas, amarelos), que se dignam até a revelar um balanço entre o campo de acção dos revoltosos e a alienação em que continua a viver a nobreza. De um lado a terra, a poeira, o sacrifício de sol a sol, os tijolos das ruínas em que se abrigam, os próprios uniformes; do outro, o sol na paisagem, um fabuloso trabalho de decoração e costura - os panos vermelhos, o ouro, o requinte, os vestidos das mulheres, as decorações. A isto se alia uma câmara muito natural e várias boas prestações dos actores, sempre incrivelmente corteses, mergulhando a obra numa estranha concepção realista. Estranha porque se trata de uma sociedade de há 100 anos, não podendo nós deixar de acreditar que foi assim mesmo que tudo se passou. A mis-en-scene é, neste filme, perfeita. A música, durante todo o filme, é deliciosa.

O Príncipe de Salina é a personagem central deste reflexivo romance histórico, cujas acções vão muito para lá de uma preocupação superficial e materialista em relação à condição da sua família. Se o mais perceptível fio condutor da narrativa nos leva a vários bailes e festas da alta nobreza, a arranjos mais ou menos elaborados, mais ou menos requintados, de romances efémeros (Concetta e o soldado) ou amores eternos (Tancredi e Angelica - um belíssimo retrato, diga-se), estão sempre implícitas (e por vezes explícitas) valorosas reflexões de filosofia política.

A ideologia. Tancredi junta-se à revolta gilardina, ainda que sem qualquer censura por parte de uma família defensora da manutenção do estado de coisas, para mais tarde acabar por se aliar ao exército real, por ter mais condições. Esta mudança de atitude é quase imperceptível quando volta do combate, em que apenas se nota diferença no uniforme algum tempo depois da sua chegada, mas aguça-se quando defende, com indignação, a morte dos desertores do exército real - se foi contrário ao que fez, em sentido, não o foi, certamente, em direcção. Com que modelos, com que ideais, com que convicções temos legitimidade para defender uma causa ? Uma disputa entre a honra e a lealdade e a segurança (material) e estabilidade (emocional).

A ruptura de uma ordem social e o surgimento de novos paradigmas. Se nos perguntarmos sobre a razão pela qual o Príncipe tão serena e amigavelmente compreendeu e não se opôs à adesão à revolta por parte de Tancredi, encontramos a resposta nas suas palavras: "Para que tudo se mantenha como está, é preciso mudar as coisas.". Talvez por o próprio Visconti ter pertencido à aristocracia, não podemos deixar de interpretar aqui e em todas as imagens, uma certa nostalgia pela mística que envolve a realeza, algo que, em 63, acabou e não volta mais. É por isso que o chefe da família, completamente ciente disto, mas não descurando os problemas que criaram a crise política em que se vive, se sente no dever de se manter fiel ao seu brasão, às suas tradições, à sua história, esperando, paradoxalmente, um triunfo da mudança. A mudança nunca manteria as coisas num sentido literal, mas evitaria sim que um reino, uma família e um povo caíssem na miséria da vergonha e do esquecimento - a preservação da história (ou não fosse o Homem feito de memórias). E novas questões se levantam, como quais os fundamentos da ruptura, a legitimidade da mudança e o papel de cada um como catalisador, travão ou moderador.

"Nós éramos os leopardos, os leões; aqueles que vão tomar o nosso lugar serão as hienas, os chacais; e uma parte de todos nós, leopardos, chacais e ovelhas, continuará sempre a ver-se a si mesmo como o sal da terra."

Monday, June 14, 2010

Citizen Kane / O Mundo a Seus Pés (1941)


É através de extraordinárias inovações, como uma das primeiras utilizações intensas do flashback e a criação de uma estória através de uma concatenação dos pontos de vista de vários personagens, que Welles (protagonista e realizador) nos conduz por uma envolvente viagem no tempo, em que perscrutamos a vida de Charles Foster Kane, magnata dos magnatas, influente dos influentes, carente dos carentes. Saber quem foi, o que fez e como fez, imaginar como teria mudado e o porquê de tudo.

Um alarido inicial, suportado por uma antiquada voz radiofónica de um histerismo sereno, dão ao espectador um bilhete de embarque numa viagem quase documental, provocando uma ânsia de saber quem foi então esse homem tão absolutamente grandioso. Esta filosofia fantástico-realista flui pelos testemunhos de várias personagens, que um dia foram uma importante peça na vida de Kane, ajudando a compor um puzzle com demasiadas peças para um homem só.

Com uma fotografia fantástica (a introdução do deep focus) e cenários exuberantes e requintados (a magnanimidade do palácio), tudo é glória e ostentação. Com uma grande prestação do actor principal e diálogos brilhantes, ficamos a conhecer uma personalidade de inigualável carisma, tornando-se difícil não acreditar na quase ridiculamente exagerada influência que um só homem havia tido nos desígnios de um país, como também a criar uma empatia e uma disciplina de apoio ao ex-futuro candidato a Presidente dos EUA.
Por entre toda esta perfeição de vida, querendo ser adorado por todos, controlando as emoções de multidões e multidões (v.g. a forja de críticas positivas às prestações da sua mulher, na Ópera), Charles vive totalmente sozinho e isolado, sem o saber, no seu "eu", na sua consciência, de si para consigo próprio. Afectado pela crise económica e envolvido em escândalos amorosos que começam por arruinar algumas das suas perspectivas profissionais e pessoais futuras, toda a adoração populista que um dia o envolvera começa a desmoronar-se, revelando a superficialidade com que foi amado e de cuja profundidade nunca duvidou.


O seu dinheiro não mais comprava um povo. A sua segunda mulher acabaria por o deixar, partindo em liberdade, fugindo da confusão que Kane não consegue evitar até aí e até ao últimos segundos da sua morte, entre a realização material, e um apoio das massas histéricas mas instáveis, e a realização emocional e espiritual, e um apoio de um grupo modesto mas de sentimento sincero.


A partir daqui, toda a ostentação do palácio dá lugar a uma vastidão negra, assustadora, vazia e melancólica e a Charles nada mais resta do que enlouquecer e morrer como, no fundo, sempre viveu: sem ninguém. No seu último fôlego, pronuncia a misteriosa palavra "Rosebud", que, aliás, é o que motiva a pesquisa jornalística. Acabamos por nos aperceber que era o nome do trenó em que tanto gostava de brincar enquanto criança, ainda antes de ser contaminado pelo vício do dinheiro e da ganância

É com certa angústia e complacência para com a personagem de Charles que me parece inevitável uma reflexão sobre a futilidade do materialismo e do populismo que acabará sempre por perder um combate contra a emoção, ou não fossem os sentimentos os verdadeiros e últimos móbeis do homem.

Tuesday, June 1, 2010

Lars von Trier - Trilogia "Europa"

A trilogia "Europa" é o conjunto das três primeiras longas-metragens do realizador dinamarquês, que não se identificam pela estrutura narrativa, mas sim pela técnica (a introdução da rear projection) pelo estilo, filmagem e efeitos (Europa seria o percursor de The Schindler's List) e pelo sempre presente herói que acaba por contribuir para o triunfo da desgraça. Em todos os três filmes, muito especialmente em Europa e em The Element of Crime, somos envolvidos numa profunda reflexão sobre as motivações, as ânsias, as dúvidas, sobre todo o psicológico do nosso personagem principal de uma forma brilhante, no limite do mágico.



3. Epidemic / Epidemia (1987)

Protagonizado por von Trier e por Niel Vorsel, este filme conta a estória de dois argumentistas que escrevem um argumento sobre uma terrível epidemia que se abate sobre a Europa e se propaga a uma velocidade assustadora, sem qualquer antídoto em perspectiva. Na sua imagem a preto e branco, a claridade como maior fatia da cinematografia e uns tons de verde azulado deixam transparecer uma atmosfera realmente doente. Paralelamente ao trabalho dos argumentistas, assistimos ao filme que estes vão escrevendo: um médico idealista rompe com as correias da racionalidade que os seus colegas sobreviventes tentam impor-lhe, para se lançar numa utópica corrida pelo salvamento de inocentes.
O filme, em si, não nos diz muito e diz-nos muita coisa. É considerado um dos maiores auto-retratos do realizador, sem que se compreendam muitas das suas incursões. Consegui achar alguns pedaços de humor, em alguns diálogos entre as duas personagens principais e senti que a pressão que os dois sentem ao ter de escrever um argumento com pouco tempo contribui, juntamente com aquele sentimento de não saber bem o que quer dizer o filme, para reconhecer validade a uma declaração de Lars von Trier: "um filme deve ser uma pedra no sapato.". Na verdade, fiquei mesmo com um nó na garganta, depois de ver este.
O nosso herói acaba por contribuir para o mal que quer eliminar, já que o médico da estória dentro da estória acaba por descobrir que é ele mesmo que propaga o vírus. Não chegasse isso, no final da estória fora da estória, assistimos a uma aterradora visualização da forma como uma epidemia surge na vida real, como se fossem os próprios cineastas os criadores de todo o mal.
Perturbador.



2. The Element of Crime / O Elemento do Crime (1984)
Uma obra extraordinária sobre a eterna dicotomia entre a realidade e a fantasia, edificada sobre a loucura de um homem e sobre o rasto de morte que persegue e que acaba por o consumir. Ficsher (Michael Elphick) está no Cairo a contar, sob o efeito da hipnose, a sua última experiência na Europa, para onde foi chamado para resolver um crime hediondo. A pausada e serena voz do narrador e de Fisher, quando começa a contar a sua história, e as indicações do hipnotisador, deixam-nos logo em modo de partida para uma apreciação do filme em estado intencionalmente dormente. A cor do filme, sépia com intensidade no amarelo, o constante recurso à imagem e ao embalador som da água a escorrer ou a cair, envolvem o espectador na profunda, perturbada, confusa e melancólica consciência do personagem principal, passando por cenários surreais e pouco aprazíveis, num distópico continente fustigado pela Guerra. Nunca sabemos bem o que faz parte da realidade e o que faz parte da sua imaginação, moldada pela traumática experiência que viveu (por exemplo, a associação da imagem do burro à fantasia e a sua aparição ao longo do filme).
Fisher conta que voltou à Europa para resolver um crime que, vem a perceber, em muito se assemelhava aos "crimes da lotaria", uma série de assassinatos perpetrados havia alguns anos. O método que segue é o de Osbourne (Esbound Knight), seu antigo mestre, o grandioso teórico da Criminologia que havia editado o livro "O Elemento do Crime", sobre como a entrada na pele do criminoso é a chave perfeita para a resolução de um caso. Osbourne está velho e louco. Afirma que Harry Grey é o autor dos massacres, com base num velho relatório elaborado pelo mesmo, três anos antes do primeiro crime. Porém, Grey terá morrido antes desse primeiro crime, num acidente em que Osbourne estava presente. Como é possível ? Não será isto fruto de uma ameaça de Harry ? O que sabemos é que a alma do antigo professor não mais aguenta o facto de achar que apenas contribui para o desabrochar da criminalidade, acabando por se suicidar.
Fisher decide perseguir Harry Grey sendo Harry Grey. Procura os mesmos lugares, dorme nas mesmas camas. A certa altura, encontra Kim (Me Me Lai), uma prostituta, com quem tem um sexo ao mesmo tempo frio e intenso, em circunstâncias que novamente nos fazem duvidar da veracidade da estória do polícia, e que contribuem para associarmos a personagem a uma alma vazia. Kim ajuda-o a entrar no papel do assassino, dando-lhe uns comprimidos para reproduzir as suas enxaquecas, atirando Fisher para um novo nível de sofrimento, desta vez físico. Por diversas vezes, lembra que "Harry Grey passou metade da noite com a Kim", claramente referindo-se à nossa personagem. Será assim mesmo ? Julgo que sim, acabando por ser um indício do fatal fim que se aproxima: Fisher descobre que Kim dormiu mesmo com Harry Grey; aliás, tem um filho dele. "Harry Grey passou metade da noite com a Kim.". A esta altura Fisher já é tão Harry Grey como o próprio. Ao vestir-se do criminoso, não conseguiu nada se não sê-lo - a prova disso é a relação com a prostituta. Como um louco, assoma à janela e dispara vários tiros para o além, exactamente como fez Osbourne da última vez que o vemos com vida, já em delírio, num cume do êxtase de histeria.
O final parece quase inevitável. Fisher acompanha uma rapariga pequenina a um local onde esta deve encontrar-se com o criminoso, sozinha, para que ele lhe compre muitas "raspadinhas". As centenas de garrafas no chão do local de encontro, perfeitamente dispostas, evidenciam, uma vez mais, o carácter surreal da estória. Após alguns momentos de suspense, sons. Um amuleto, em forma de cabeça de burro, o símbolo do assassino, cai do bolso do nosso herói, que apenas o guardava como prova. A rapariga, apavorada, julga estar perante a encarnação da sua sina e Fisher, consumido pela cegueira e pela obsessão do homem em que tentou transformar-se, torna-se ele mesmo o desprezível monstro que tenta destruir.



1. Europa (1991)
Um jovem rapaz, Leopold Kessler (Jean-Marc Barr), vem de uma acolhedora América para uma Alemanha completamente destruída pela Guerra, onde o desemprego e a inflação fustigam toda a população e onde as doenças se propagam. Os segundos iniciais em que somos conduzidos, em primeira pessoa, por uma linha de ferro, são acompanhados por uma característica voz de serenidade, que nos prepara para o que vamos ter quando chegarmos "à Europa", quase empatando a nossa expedição, tentando fazer-nos parar.
A imagem está quase sempre a preto e branco, com o grande papel das tenebrosas cenas na caracterização grotesta do continente a que chegamos. Kessler vai trabalhar para os caminhos-de-ferro para ajudar a reconstruir o país de onde partiu. Na verdade, o desenvolvimento dos transportes é um dos pontos fulcrais para a recuperação social e económica da ex-potência mundial, que assume, desde logo, uma nova filosofia de cooperação e união, ao empregar um estrangeiro apesar os inúmeros desempregados nacionais que vão desesperando.
Mas a paz não vive descansada. Os lobbies contornam as novas regras e a resistência nazi ainda se faz sentir. Max Hartmann, dono da companhia ferroviária onde trabalha Kessler, a Zentropa, consegue a cooperação de um judeu, num processo de inspecção, para se livrar de possíveis acusações de colaboração com o III Reich, mas apenas até se suicidar. A cena é absolutamente brutal, com o sangue a transbordar da banheira e a fluir até ao corredor, para terror da sua filha Katharina e de Leopold. O resultado de uma consciência pesada, que nos deixa a balançar entre a o contentamento pelo castigo que sofre, e a complacência com o arrependimento profundo que revela sentir. É este último que acaba por prevalecer, com a luta clandestina que várias pessoas têm para garantir um funeral digno ao empresário.
Depois da cena da banheira, são as cenas entre Leopold e Katharina aquelas em que surge a imagem a cores, um reforço da emoção, da esperança que pode emergir. Uma paixão que brota e que admite sobrepor-se a todas as dificuldades, com a cena de sexo em cima de uma linha de comboio em miniatura simbolizando, julgo eu, a superioridade da sua relação a qualquer guerra, a qualquer reconstrução, a qualquer intriga ou traição.
Tudo acaba por complicar-se. Sem querer, Kessler é cúmplice no assassinato de um político da confiança dos aliados. A confusão instala-se no seu interior e o medo eleva-a ao estado de loucura quando os Werewolf, resistência nazi, raptam a sua amada, exigindo que coloque uma bomba no comboio, aquando da passagem numa ponte.
É a partir daqui que assistimos aos verdadeiros desafios do nosso personagem. Chega como herói e tem de sair como mais um dos cultores da desgraça. Chega como um romântico enamorado e tem de sair um desgraçado viúvo. Chega como um estagiário promissor e enfrenta um exame que não consegue levar a sério, por tudo o que o perturba. Agora, tudo se passa num comboio, um espaço fechado mas em contínuo movimento, criando a dicotomia entre a claustrofobia, o destino fatídico da perda a que não pode fugir (ou o seu amor ou a sua dignidade/lealdade/patriotismo) e a estrada infindável, a esperança de um novo rumo.
O twist final é absolutamente fantástico. Katharina era ela mesma um membro do grupo nazi Werewolf, ainda que lute por autonomizar a influência que deveria exercer sobre Leopold do amor que acabou por sentir por ele. Desesperado, louco, finalmente deixando para trás a ingenuidade que o trouxe à Europa, confrontado com um mundo cínico, hipócrita e sedento de poder e vingança, depois de assaltado na sua última esperança, desiste de desactivar a bomba que lhe havia toldado o espírito e voltado a iluminar a alma (a certa altura vai tentar voltar atrás), para deixar acontecer a explosão. Morre afogado, em mais uma sequência em que o narrador nos tenta absorver para o local, contando até dez e deixando-nos antecipar a dolorosa morte - a contagem vai em 6 e já sentia aflição.

Saturday, May 29, 2010

Quentin Tarantino - Top 7


Bem sei que sete é um número estranho. Mas sendo esse o número de filmes que Quentin Tarantino realizou enquanto profissional, faço o jeitinho de não me reduzir a uns meros cinco, ou tentar alargar para dez.


6. Deathproof / À Prova de Morte (2007)
Um dos mais recentes, que tenta recuperar os clássicos road movies dos anos 70, com um argumento dividido em duas estórias quase totalmente autónomas: numa, Stuntman Mike (Kurt Russel) persegue um grupo de raparigas, à noite, com o objectivo de as matar, provocando um sádico e intencional acidente de carro; noutra, que se passa depois da primeira, Stuntman Mike persegue um grupo de raparigas, (...). Ia repetir-me, praticamente, à excepção da parte final. O único mérito parece-me ser salvaguardado por um diálogo hilariante e pela melhor colisão de automóveis em movimento que alguma vez vi (é na primeira perseguição; que perfeito que ficam as várias cenas, com os vários ângulos, mostrando, sem espinhas, a brutal morte que cada uma das raparigas tem). A segunda perseguição também fica particularmente interessante com a participação da dupla de cinema Zoe Bell, a fazer dela própria, numa cena bastante arrojada e a pancada no fim também sabe bem, para quem consegue gostar do estilo de Tarantino. De resto, achei pouco estimulante. Além disso, começa por ser interessante a edição propositadamente deficiente, até com alguns minutos do filme a preto e branco, mas é algo que acaba por ser esquecido, perdendo-se alguma da sua essência.



5. Jackie Brown (1997)

É uma boa estória, com muita acção, diálogos com muita piada (mais uma excelente interpretação que Tarantino arranca a Jackson), e muito interactiva - consegue pôr o espectador a querer prever qual será a próxima manobra, e de quem, ou de que forma é que X vai enganar Y.
Um filme sobre meio milhão de dólares e sete pessoas que entram numa corrida para ficar com eles. Jackie (Pam Grier) é uma hospedeira de voos de pouca categoria, que movimenta o dinheiro (em sentido físico e não electrónico) de Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) entre os EUA e o México. Ordell é um traficante de armas que pretende juntar um milhão de dólares no México, altura em que se reformará. Pela altura em que assistimos ao filme, vive com Melanie (Bridget Fonda), uma rapariga que passa o dia a ver televisão e a fumar erva, que lhe faz coisas como atender o telefone (que cena genial, logo no início) e que serve para sexo. A estes dois junta-se Louis (Robert De Niro), acabado de sair da prisão, prestes a começar a trabalhar nuns esquemas de Ordell. A certa altura é-nos introduzido Max Cherry (Robert Forster), fiador de fianças a quem Ordell recorre para tirar Jackie da prisão (uma prisão que apenas durou algumas horas) e a dupla Ray/Mark (Michael Keaton e Michael Bower), dois polícias que escondem o verdadeiro objectivo de deitar abaixo o traficante de armas através da prisão da personagem que dá nome ao filme. A certa altura, é tempo de esquecer o milhão e mandar vir o que há: meio milhão.
Deu para perceber a sopa ? Não adianta falar sobre a trama em si. Digamos que todos eles têm um momento em que, consigo mesmos, se regozijem de alegria por terem conseguido o dinheiro. Mas nunca é bem assim.



4. Reservoir Dogs / Cães Danado
s (1992)
Reservoir é o filme que lança definitivamente Tarantino, depois do primeiro fracasso com My Best Friend's Birthday (uma curta, ainda amadora), com a introdução daqueles que serão os ingredientes principais dos filmes que se seguem, presentes em quase todos: violência, crime (mais ou menos organizado), pop culture, diálogos brilhantes e com grande peso para as estórias, (mais do que a imagem) e narrativa não linear. Por ter sido o primeiro a juntar tudo isto, e apesar de ter sido bem recebido pela crítica da altura, foi considerado por muitos como demasiado chocante. Vários relatos há de personalidades do mundo do cinema que saíram da sala a meio, deixando aquela particular admiração para um certo número de fãs que vai tornar este o primeiro grande filme de culto do realizador.
Seis homens, com um plano para assaltar uma loja de diamantes em bruto, vêem-se em maus lençóis quando um deles perde as estribeiras e desata aos tiros, provocando o fracasso da operação. Os sobreviventes, um a um, vão chegando ao armazém onde haviam combinado encontrar-se no final da missão, acabando por se aperceber que a sua vida está mesmo complicada: dois deles morreram, um deles est
á gravemente ferido, um deles é louco e um deles (este não se sabe quem) colaborou com a polícia para os apanhar.
Uma tensão crua e bicuda, muito bem const
ruída através da localização espacial claustrofóbica e de um conjunto de reacções precipitadas e impulsivas de vários criminosos que, antes de profissionais, são seres humanos que também temem pelo seu "coiro". Interessante twist final, mas que podia ter sido levado mais além.




3. Kill Bill: Volume 1 (2003)
& Kill Bill: Volume 2 (2004)
Em primeiro lugar, não consigo contar estes dois como filmes diferentes. Ainda que o sejam, contam a mesma estória, dividia em dois.
Basicamente, temos uma noiva, Beatrix Kiddo (Uma Thurman, vénia para ela), que foi brutalmente espancada durante um ensaio do seu casamento. O noivo e os amigos morreram. Agora, assistimos a uma estória de vinganç
a bruta e crua, em que ela fará tudo o que for preciso para matar todos os que lhe fizeram mal. (humoristic thing: ela tem um papel quadriculado, num cadernito, onde tem apontados os nomes daqueles que tem de matar, e vai riscando).
O interesse vai sempre subindo a pique, continuando nesse sentido no segundo volume. Ou diria, especialmente no segundo volume. Entram em jogo componentes que muito mais nos envolvem, por tudo fazer mais sentido, por todo o background de Beatrix ter de significar qualquer coisa (aquele click em que me apercebi de que os treinos do murro na madeira lhe iam servir para sair do caixão), pela maior intensidade dramática que acrescenta (a sua filha e o amor que no fundo sente por Bill, o que vai culminar num final perfeito). Apenas duas notas menos boas: penso que Ellen era uma personagem que merecia melhor desenvolvimento (apesar de ter protagonizado uma sequência muito boa, matando Budd com a cobra e ficando sem o segundo olho) e o facto do director, a certa altura, se ter esquecido que a noiva levou um tiro de shotgun no peito.
Provavelmente o filme que melhor retrata o realizador no que toca à comunicação visual*, fez-me também aperceber-me de uma coisa: é preciso gostar do seu humor negro, muitas vezes alcançado através do recurso a situações que ficam no limite entre o extraordinário e o ridículo. Ora, nesta obra, pensei por várias vezes que o que estava a ver era uma ridícula genialidade (tem de se saber entrar no jogo, e tem de se gostar de jogar).
Por mim estava perfeito assim, mas não posso deixar de ficar expectante quanto ao terceiro volume, que aí vem em 2014.
Por último, deixo uma breve nota para o facto de ter cortado com o conceito de crime organizado à volta de uma certa quantia de dinheiro, com várias personagens a disputa-lo, que até agora vínhamos a ver, estancando o vício que poderia ter vindo a dar azo a uma filmografia enjoativa.


*a maior importância dada a este aspecto pode confirmar-se pelo facto de um capítulo do primeiro filme ser em manga style. Delicioso, o pormenor.




2. Inglorious Basterds / Sacanas Sem Lei (2009)

Chamem a polícia. Este filme foi totalmente roubado na última edição da entrega dos prémios da Academia, quando perdeu Melhor Filme e Melhor Argumento Orignal para o The Hurt Locker. Bem, começo condicionado pelo meu certo fanatismo por filmes ligados a esta época e a acontecimentos históricos que a rodeiam. Porém, julgo que um filme em que o Hitler morre queimado numa sala de cinema é qualquer coisa que merece ser visto, logo a priori, pela originalidade. Violência, sangue, humor e um evento final (o final da II Guerra) para o qual vão contribuir dois planos de acção diferentes (o plano dos EUA, levado a cabo por Aldo e os seus soldados; o plano de Shoshana), bastante bem desenvolvidos, com suspense, piada e conflito permanente.
Aqui a vénia não pode deixar de ser distribuída para outra pessoa, que não o guionista/director: Christoph Waltz. A primeira cena do filme é cinema do mais bem feito que há, de uma mestria, de uma subtileza incríveis, com uma extraordinária intensidade dramática, sempre com o seu tom cómico. Para mim, marcou o filme e seria difícil não gostar a partir daí. O que é verdade é que Waltz, como Hans Landa, rouba completamente o espectáculo a Brad Pitt ou qualquer outro - dei por mim quase colado ao ecrã de cada vez que o homem falava, babado com qualidade da forma como expressava as suas impressões, fazia os seus avisos, maravilhado com a forma como manejava três línguas de forma perfeita, sempre expectante de ver algo acontecer.




1. Pulp Fiction (1994)

As pulp magazines eram umas revistas bastante populares nos anos 20, que contavam histórias particularmente caracterizadas pela sua ultra-violência. Portanto, quando no início somos confrontados com a definição de pulp, directamente retirada de um dicionário, não se pense que se refere à "espécie de líquido", ainda que também pudesse ser uma referência ao banho de sangue a que assistimos. Um dos melhores argumentos que já vi. Uma estória de tráfico de influências, traição e lealdade entre manda-chuvas e employees, corrupção ao jogo, coacção, dinheiro, violação, tortura, tiros, muitos tiros. Um autêntico Grand Theft Auto.

Para mim o ponto alto dos diálogos de Tarantino, enquanto importância e brilhantismo. Assistimos a longas conversas, dissertações filosóficas, em que ficamos a conhecer, compreender ou odiar as personagens ou até a assistir às radicais mudanças da sua personalidade ou estilo de vida. Posso dizer que os dois segmentos em que S. L. Jackson cita o 21:17, da Bíblia, da primeira vez para o mal, da segunda para o bem, são dos mais fantásticos pedaços de conversação a que já assisti num filme - e são monólogos. Além de tudo isto, a sequência desordenada dos "capítulos" dá-lhe um subtil toque de mestre e, a mim, de fullfilment, quando começo a sentir a estória toda a ficar bem preenchidinha - revigorante.

Não posso deixar de destacar as excelente prestações de quase todos: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis (apesar de este ter apenas sido ele próprio, quase) Maria de Medeiros.

Monday, May 17, 2010

2001: Space Odyssey / 2001: Odisseia no Espaço (1968)

Não tenho dúvidas de que estou perante um dos títulos não-intelectuais (como, e recorrendo a um exemplo do mesmo autor, "Clockwork Orange") mais bem conseguidos que já li. "Odisseia". É a síntese perfeita para esta tão diferente experiência - é de uma pura deambulação anestética, um sentimento de completo envolvimento na esfera espacio-temporal da estória.

A chave para isto é o facto de estarmos perante uma obra essencialmente visual e musical, com pouquíssimos diálogos - os primeiros e os últimos vinte minutos do filme (num total de quarenta, aprox.) passam-se sem qualquer fala. Estamos a falar de um filme idealizado em 1965, quatro anos antes do homem chegar realmente à lua (21 de Julho de 1969), em que vemos naves de vários tipos, bases espaciais, fatos de astronautas, a interacção do homem e um espaço de uma perfeição admirável (não sou eu ninguém para avaliar isso mas 1) Kubrick convocou peritos para o aconselharem nos mais ínfimos pormenores; 2) é tecnologia que eu aceitaria perfeitamente ver num filme actual, sobre o espaço). Estamos a falar da existência de um computador (HAL) que tem um nível de inteligência equiparável ao homem e da inclusão daquilo a que hoje chamaríamos uma conversa por webcam (apesar de aqui ser através de um telefone). Estamos a falar de efeitos de cores e luz belíssimos aquando da chegada a Júpiter. Eu sei que o homem foi um grande visionário, mas não consigo deixar de ficar atordoado de cada vez que penso.


Falei em música, também: são duas horas do melhor que há de música clássica. Bom, se me dissessem que havia um filme com naves e afins, incessantemente acompanhada por Beethoven ou Mozart, talvez me risse. Pobre tolo. Inspirou-se nas valsas alemãs para, ao olhar para a nave mãe da sua estória, que tem uma estrutura em forma de circunferência e em permanente rotação, nos injectar com a famosa melodia de Johann Strauss II, O Danúbio Azul.

A harmonia entre a rotação das naves, os planetas redondos, as naves redondas, os astronautas às voltas, sempre que saem da nave, o design futurista de toques igualmente arredondados, a lentidão com que grande parte do filme se passa (efeito da gravidade) e esta fabulosa banda sonora transporta-nos para um certo estado de êxtase, se estivermos a conseguir apreciar tudo.

O argumento, a estória em si, também está muito interessante. Pode ser dividido em três capítulos:


1. Pré-histó
ria.
4 milhões de anos antes de 2001, em África. Sol, grandes pradarias. Vários animais. Duas tribos de macacos andam por ali, a fazer a sua vida - passamos algum tempo a assistir a isto. Numa manhã, um monolito negro caiu na Terra, para espanto e confusão dos primatas.
A partir do momento em que estão perante a sua presença, ter-se-à (é a interpretação que faço, e penso que é a correcta) desencadeado o processo de evolução, de onde surge o homem - depois do acontecimento, um dos macacos descobre as potencialidades que um osso pode ter (nomeadamente como arma). Logo de seguida, vemos os macacos a comer carne (já caçaram) e uma disputa sobre uma pequena "poça" de água que outrora partilhavam.


2.Viagem à Lua (2001)
Numa altura em que já nos podemos maravilhar com a criatividade futurista de Kubrick, Dr. Heywood Floyd (William Sylvester) chega a uma nave com o objectivo de dirigir uma expedição à lua onde havia sido encontrado um monolito negro, exactamente igual ao que caíra na Terra há 4 milhões de anos atrás (nota: a audiência está a par desse facto, não as personagens). Como é que esta sequência nos ajuda a perceber o poder que a pedra tem para gerar vida e despoletar a evolução ? Pelo facto das análises feitas ao bloco se puder afirmar que este havia sido enterrado deliberadamente. Uma informação que não se desenvolve e que, simplesmente, nos deixa divagar sobre que tipo de vida extra-terrestre existiu, porquê, como, e por aí adiante.

3. Viagem a Júpiter (2002)
O único vestígio que tinha sido retirado do monolito lunar que podia levar à descoberta da sua origem eram traços de uma comunicação radiofónica para ... Júpiter. A missão conta com o Dr. Dave Bowman (Keir Dullea), Dr. Frank Poole (Gary Lockwood) e três outros cientistas que estariam em modo de hibernação até à chegada ao destino. Passando por cima do conflito que surge no decorrer da viagem, Bowman acaba por ser o único a chegar ao distante planeta, onde encontra um monolito semelhante e um cenário completamente inacreditável, surrealista, deparando-se com sucessivas visões da sua pessoa em idade cada vez mais avançada (ele próprio, ao atravessar o "fluxo de energia" para entrar no planeta, envelhece alguns anos). De repente, estamos perante um Bowman velhíssimo e doente, deitado numa cama. É mesmo ele.
Um novo monolito negro aproxima-se e ele toca-o. A imagem seguinte, a última, é uma bola de luz verde, envolvendo algo que concluo ser um "bebé ET" a dirigir-se para a Terra.

Sunday, May 9, 2010

The Silence of the Lambs (1991)

É o segundo filme de Jonathan Demme a entrar para a conta dos meus favoritos (o outro é "Philadelphia"). Sem cerimónia: mais um clássico.

Clarice Starling (Jodie Foster) é uma promissora estudante na Academia do FBI, recrutada como último recurso para se bater numa luta psicológica com Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), um serial killer encarcerado a sete chaves, por forma a desvendar a identidade de outro serial killer (Buffalo Bill, por Ted Levine). O brilhante psiquiatra, preso por canibalismo, acaba por engraçar com Clarice, estabelecendo uma peculiar relação de confiança (alicerçada no famoso quid pro quo - "I tell you things, you tell me things") e, por entre uma miríade de fantásticos e profundos diálogos, revelações extremamente subtis mas totalmente verosímeis vão surgindo, num delicioso acumular de tensão, que culmina no confronto final entre a agente e o criminoso, às escuras. Um final aberto, que deixava antever um segundo filme, que acabou por chegar 10 anos depois (contando com uma prequela, em 2002, "Red Dragon", e uma prequela da prequela em 2007, "Hannibal Rising"): "Hannibal".

Um bom thriller. O "excelente" não o retiro tanto da estória, mas sim dos diálogos, de toda a interacção e tensão psicológica que envolve os personagens principais e a construção dos mesmos (com grande contributo das prestações de Hopkins e Foster).

Uma vénia para o título, o qual se acaba por inferir de mais um (dois, aliás) brilhante momento em que Lecter perscruta a vida pessoal da jovem Starling.

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Monday, April 26, 2010

Re-Animator (1985)


Uma peça já antiga que passou hoje no Culturgest (INDIELISBOA) e que resolvi ver.

Um puro sci-fi/horror bem ao jeito que não costumo gostar e que me surpreendeu pela positiva. Veio da direcção do americano Stuart Gordon (não conheço nada dele) e trouxe-me aos sentidos toda a atmosfera cientológico-medieval que eu sentia experimentar de todas as vezes que via ou ouvia histórias relacionadas com o mito do Frankenstein - um cientista maluco encerra um extravagante laboratório no seu castelo nas montanhas e consegue ressuscitar um morto.

Desta vez não há castelo. Herbert West (Jeffrey Combs) é um estudante de medicina que julga ter descoberto um reagente que, aplicado à fórmula do seu ex-mentor, pode trazer os mortos de volta para o mundo dos vivos. Acaba ir viver para casa de um brilhante estudante de medicina, Dan Cain (Bruce Abott), em cuja cave encerra o tal característico laboratório.

Dan acaba por se tornar o seu parceiro na experimentação do produto. Porém, as coisas correm mal. Primeiro, Meg (Barbara Crampton) acaba por ser metida ao barulho, ao assistir, involuntariamente, a uma experiência com um gato (era algo, supostamente, secreto). Segundo, o Director da faculdade e grande admirador de Dan, ao saber, pela sua boca, do projecto de West, declara-o como louco, retira-lhe a bolsa e proíbe-o de ver a filha (Meg). Posteriormente, os resultados finais não se revelam o esperado - os novos vivos não são mais "pessoas". Não são racionais nem têm qualquer traço de personalidade - quando acordam, são pouco mais do que animais ferozes e descontrolados.

É a partir deste último problema que tudo se complica. Uma ressuscitação corre mal, morre o Director, a sua ressuscitação corre mal e entramos no comboio de criação de pseudo-zombies. No meio de tudo isto surge o nosso antagonista: Charl Hill (David Gale). Hill é um neurocirurgião brilhante que desde cedo se vê confrontado com as declarações de West, sobre a forma como todos os seus estudos são plágios. É onde surge o ódio pessoal entre os dois. O médico acaba por descobrir do projecto dos dois estudantes e vai até à famosa cave onde é morto. E ressuscitado.

E eis que se inicia um plano B: o plano do mau: ficar rico e famoso com a nova descoberta e deliciar-se com Meg. West e Cain conseguem o comeback para, na morgue, terem de enfrentar um exército de novos vivos.

O final é triste. Depois de todos estarem definitivamente mortos (incluindo Hill e West; este último, permitam-me, sufocado por um intestino com vontade própria, *risos*), o filme termina com Dan a tentar reanimar a namorada, sem sucesso, numa imagem semelhante à inicial (depois dos créditos), que transmitem, especialmente pelas reacções da médica supervisora, a inevitabilidade da morte.

Porém ... Dan ainda tem um frasco do antídoto.

A construção do filme não está nada de especial, aliás, com alguns cortes um bocado bruscos. Mas há imagens que superam em muito o nosso caro SAW. O argumento podia estar ridículo, mas, como disse, achei-lhe graça (com as devidas incongruências, mesmo num sci-fi, como por exemplo, uma cabeça a respirar sozinha). Houve coisas que ficaram por explicar mas houve uma que me chamou particularmente a atenção: porque é que todos os ressuscitados ficam irracionais e estúpidos e o Hill ficou "normal" ?

Por fim, deixem-me deixar uma nota para o facto de estar para sair, em 2010, o House of the Re-Animator. Pensei que fosse um remake. Porém, as personagens estão ligeiramente diferentes. Não elas próprias, mas sim o seu percurso. Ao que parece, Meg é Dama de Honor e contamos ainda com destaque para o Presidente e Vice-Presidente dos EUA. Dan e West estão presentes e serão interpretados pelos mesmo actores, bem como a ex-namorada do médico. Se assim for, ou é uma versão totalmente nova ou, no fim de contas, este primeiro filme teve um final feliz.

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Saturday, April 24, 2010

The Shining (1980)


Baseado na obra literária de Stephen King, com o mesmo título, trazido para o cinema por Kubrick, The Shining é outro daqueles que entra, imediatamente no segundo em que termina, para a minha lista de filmes favoritos.

Uma família, pai, mãe e filho, isola-se num grande hotel de luxo, nas montanhas, longe da civilização, durante sete meses. Jack Torrence (Jack Nicholson), o pai, é um escritor que precisa de um "retiro espiritual" onde possa beber inspiração para o seu trabalho, motivo que o leva a candidatar-se ao cargo de caretaker (zelador) do Overlook Hotel, onde o ar é puro, a paisagem é linda e o sossego não tem fim.

Porém, a vida não será fácil - a tragédia protagonizada pelo último caretaker antes de Jack surge como um forte indício de fatalidade. À medida que Jack enlouquece, Danny Torrence (Danny Loyd), o filho, vê constantemente, na sua cabeça, imagens passadas do que lá se passou e imagens futuras do que se virá a passar, num claro paralelismo feito entre o assassinato da família Grady e o possível massacre da família Torrence. A este dom da criança, ensina-lhe Dick Hallorann (Scatman Crothers), dá-se o nome de shining, também partilhado pelo simpático cozinheiro do hotel. Já Wendy (Shelley Duvall), a mãe, procura o conforto do marido, assistindo impotente à sua transformação violenta e o bem estar da criança, assistindo a impotente às perturbações causadas pelas suas visões.


O argumento está de um engenho de mestre. Senti que toda e qualquer cena teve grande significado. A construção do suspense é perfeita: a tragédia dos Grady, as visões de Danny, os diálogos com Dick e a sua voz grave, quase em tom de aviso, as expressões fantásticas de Nicholson, tudo isso nos faz antever que a tragédia final é inevitável. Porém, sendo uma das chaves do sucesso do filme, são poucas as cenas ao longo do filme em que acontece algo realmente fora do normal, assustador, mau - o que só contribui para acumular mistério e tensão (e aqui também as músicas e os sons têm uma importância fulcral).

Para mim, há três cenas fenomenais - uma qualidade que só se concebe com um grande argumento e grandes interpretações: 1) os diálogos imaginários de Jack com Lloyd, o empregado do bar e com Grady (no fundo são quatro cenas); 2) "Redrum"; 3) a invasão final de Jack ao quarto da família, como "mítico" machado.

Entrei nos actores, mas tenho pouco a dizer. Shelley faz um bom papel, que não achei extraordinário. O mesmo não digo quanto à criança. É provável que o cinema tenha perdido aqui um grande actor, quando Danny decidiu que não queria fazer do cinema a sua vida - hoje tem quase 40 anos e é professor de Ciências numa escola do Michigan. Por fim, por muito boa que esteja a história, por mais saborosa que seja uma realização do K. (vénia para uma parte que aparece várias vezes, a inundação de sangue), o filme não seria o mesmo sem Jack Nicholson.

Friday, April 9, 2010

A Clockwork Orange / Laranja Mecânica (1971)


A primeira coisa que me saltou à vista foram os cenários - os que correspondem a algo construído pelo homem, como uma casa. A decoração e configuração da casa de Alex DeLarge (Malcom McDowell, que eu só conhecia de Heroes, como Linderman) e daquela em que o grupo viola uma mulher, que vem, mais tarde, a servir de tecto ao nosso personagem principal, revela a sua impressionante visão futurista. Se me dissessem que era algo actual, acreditaria. Também é verdade que de moda percebo pouco, mas parecia mesmo moderno. A este tratamento vanguardista, deixem-me acrescentar uma nota sobre as filmagens bastante explícitas dos nus. Notem, para tudo isto que acabei de dizer, que já lá vão quase 40 anos.


A isto acresce o facto de ser uma grande história. Anda à volta do tema da violência e do debate filosófico entre a função da sanção, neste caso, a prisão (punição(/retributivismo vs reabilitação), que já vem a ser tratado desde os gregos.


A violência é retratada de uma forma fantástica, numa espécie de comédia sádica – aos actos cruéis (agressão a um velho sem abrigo, bêbedo; violação de mulheres) subjazem as posturas descontraídas e gozonas do grupo (os comentários, as máscaras, os fatos que, noutro contexto, seriam apenas idiotas, o tom de voz de Alex, a música divertida e engraçada que quase nunca pára). Por momentos, é capaz de nos fazer pensar se não estaremos com um sorriso estúpido na cara, a achar graça às maldades que os rapazes vão perpetuando.


A certa altura, DeLarge é traído pelos amigos (os indícios já o faziam prever) e acaba por ir para à prisão, onde a sua postura de “mandrião” autêntico (parece-me uma boa qualificação) é completamente desmontada. Baixa a bolinha e começa a converter-se (talvez esta conversão deve ficar entre aspas, se é que me percebem) à religião. É um claro percurso de lambidela de botas, de uma intencional pseudo-ingenuidade e pseudo-arrependimento, igualmente cómicos. Muito bom.


Às tantas, lá arranja maneira de se submeter ao mais recente tratamento do Ministério da Justiça, que promete curar todo o intento criminal de todo o criminoso, a fim de tornar a sua reinserção na sociedade mais fácil e desejável. É uma autêntica tortura para o personagem e acaba por resultar de forma exagerada e desumana – não consegue suportar violência nem sexo, de forma alguma. Enquanto que, aqui, alguns defendem que se deve seguir com a punição dos criminosos, outros defendem que o caminho é a reabilitação. O tal debate.


A saída da prisão acaba por só trazer mais desgraças. Os seus pais têm um novo “filho”, e praticamente rejeitam o pródigo, é espancado por um grupo de sem-abrigo, é torturado fisicamente pelos colegas traidores (que, na altura, já são polícias) e psicologicamente por um homem que deixou inválido, num dos seus ataques (em que também matou a sua mulher). Notem que isto é tudo de seguida: é espancado, os polícias salvam-no; foge e vai dar com a casa do homem. Esta última travessia é particularmente engraçada, já que o instrumento de tortura é a sua outrora música preferida, a 9ª sinfonia de Beethoven, cujo repúdio foi um dos efeitos secundários do famoso tratamento “Ludovico”.



Eis que chega o final. O Ministro da Defesa, interessado em manter o seu capital político, corrompe o nosso “humilde protagonista” (é, entre outras coisas, assim que ele se apelida, enquanto narra a história), que estava no hospital, após uma tentativa de suicídio, por não aguentar aquela tal tortura psicológica – a imprensa e o povo logo caíram em cima do governo, acusando o seu programa de violação dos direitos humanos. Nos últimos segundos, o Ministro pensa que consegue corrigir a situação, pousando para a comunicação social, num ambiente de cumplicidade, com Alex. No entanto, parece que até a reabilitação tem cura …


Aqui pode entrar uma breve explicação do título (que, confesso, não percebi, quando vi o filme). Basicamente, o homem tem sempre a opção de escolher o caminho do bem ou do mal. Neste sentido, é como uma laranja, um organismo vivo, com cor e sumo. No entanto, Alex é condicionado e forçado a escolher o bem. É nessa altura que se torna uma laranja mecânica. Fantástico.


Uma última nota para os diálogos, que estão brilhantes.


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