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Friday, July 9, 2010

Os Filmes dos Presidentes IV - António Ramalho Eanes

Não deverá ser surpresa a escolha do nosso primeiro Presidente da República eleito no pós-25 de Abril, ou não fosse António Ramalho Eanes militar (General) e não fosse O Resgate do Soldado Ryan um dos maiores filmes de guerra que temos connosco. Baseado na estória verídica dos irmãos Niland, é com vigorosa emoção e com sonhador e empenhado realismo (os próprios actores estiveram algum tempo no exército, como recrutas - experiência que garantem não querer voltar a repetir) que Steven Spielberg pinta o cenário dos últimos dias da II Guerra Mundial, contando a jornada de oito homens destacados para salvar apenas um: James Francis Ryan.

Os primeiros trinta minutos de filme são de uma mestria louvável. As dezenas de homens, que o director faz parecerem centenas, emergem de um silêncio perturbador para uma confusão de correrias, movimentações e estratégias, dando origem a um caos absoluto, nem sequer regular mas sim arritmicamente acelerado (onde nos é introduzida uma câmara tremida que nos acompanha o resto do filme e que muito contribui para o nosso envolvimento no mesmo). O plano inunda-se não só de um mar tormentoso e sufocante (com uma câmara que cessa tudo à sua volta, menos a imagem, quando submerge - pormenor belíssimo) mas também de gritos de morte ou de ordem, tiros de todos os lados, bombas e embates - o barulho exuberante e insuportável, a que se vai aliar uma música que quase nunca aparece (excepção feita para a nostálgica e pseudo-pacífica sequência em que os soldados ouvem Edite Piaf).

O céu carregado, a terra e a poeira, a chuva torrencial, e as vestes que envergam os soldados, as cores que os cobrem, escuras, com cinzentos que ameaçam rasgar-nos o coração, introduzem o tom cruel e desolador da guerra, injectado por entre imaginárias paredes metálicas e gélidas, compostas pelo armamento que os destrói, sustenta ou motiva.


No meio de tudo isto, apenas duas cores conseguem sobressair: o vermelho e o laranja. É o sangue que jorra dos buracos dos corpos, que se fixa em salpicos nas caras dos sobreviventes, que flui pelo outrora límpido areal, que tinge a água do mar de um vermelho agoniante, qual última ceia. É o fogo que queima a carne, o metal e o espírito, em nome da chama não só de uma nação mas também do Mundo.
São os dois tons que marcam o filme. Se pelo primeiro se narra o início da histórica vitória dos Aliados, pelo segundo narra-se uma epopeia de coragem, sacrifício, irmandade e dignidade - "Não percebo esta matemática, em que sacrificamos oito homens para salvar um.". Uma epopeia de motivações e limites do Homem - Upham, que se recusa a disparar sobre quem quer que seja, consegue salvar um soldados alemão da morte, libertando-o, o que nos deixa a interrogação "será que todos os soldados nazis defendiam uma causa ?". No final, acaba por premir o gatilho, assassinando quase à queima-roupa esse mesmo soldado, que se voltara a juntar aos compatriotas nazis, o que só nos complica o dilema da enunciada pergunta.

Uma obra épica que conjuga tudo aquilo que me agrada ver no cinema: uma mensagem profunda, ou não fosse este um sincero agradecimento à memória de toda uma geração a que se exigiu a democracia em que hoje vivemos e uma estória absolutamente contagiante, emotiva (o pathos) e narrativamente fantástica.

"I have here a very old letter, written to a Mrs. Bixby in Boston. "Dear Madam: I have been shown in the files of the War Department a statement of the Adjutant-General of Massachusetts that you are the mother of five sons who have died gloriously on the field of battle. I feel how weak and fruitless must be any words of mine which should attempt to beguile you from the grief of a loss so overwhelming. But I cannot refrain from tendering to you the consolation that may be found in the thanks of the Republic they died to save. I pray that our heavenly Father may assuage the anguish of your bereavement, and leave you only the cherished memory of the loved and lost, and the solemn pride that must be yours to have laid so costly a sacrifice upon the altar of freedom. Yours very sincerely and respectfully, Abraham Lincoln."

Avanço que terminarei a rubrica "Filmes dos Presidentes" com um último artigo, será "o meu filme", um dos meus favoritos.

Thursday, June 24, 2010

Os Filmes dos Presidentes II - Jorge Sampaio

Il Gattopardo / O Leopardo (1963) é um longo mas belíssimo retrato da queda da aristocracia siciliana durante o Risurgimento, movimento de unificação da Itália.

O trabalho fotográfico é magnífico, imprimindo uma película em tons quentes (castanhos, vermelhos, laranjas, amarelos), que se dignam até a revelar um balanço entre o campo de acção dos revoltosos e a alienação em que continua a viver a nobreza. De um lado a terra, a poeira, o sacrifício de sol a sol, os tijolos das ruínas em que se abrigam, os próprios uniformes; do outro, o sol na paisagem, um fabuloso trabalho de decoração e costura - os panos vermelhos, o ouro, o requinte, os vestidos das mulheres, as decorações. A isto se alia uma câmara muito natural e várias boas prestações dos actores, sempre incrivelmente corteses, mergulhando a obra numa estranha concepção realista. Estranha porque se trata de uma sociedade de há 100 anos, não podendo nós deixar de acreditar que foi assim mesmo que tudo se passou. A mis-en-scene é, neste filme, perfeita. A música, durante todo o filme, é deliciosa.

O Príncipe de Salina é a personagem central deste reflexivo romance histórico, cujas acções vão muito para lá de uma preocupação superficial e materialista em relação à condição da sua família. Se o mais perceptível fio condutor da narrativa nos leva a vários bailes e festas da alta nobreza, a arranjos mais ou menos elaborados, mais ou menos requintados, de romances efémeros (Concetta e o soldado) ou amores eternos (Tancredi e Angelica - um belíssimo retrato, diga-se), estão sempre implícitas (e por vezes explícitas) valorosas reflexões de filosofia política.

A ideologia. Tancredi junta-se à revolta gilardina, ainda que sem qualquer censura por parte de uma família defensora da manutenção do estado de coisas, para mais tarde acabar por se aliar ao exército real, por ter mais condições. Esta mudança de atitude é quase imperceptível quando volta do combate, em que apenas se nota diferença no uniforme algum tempo depois da sua chegada, mas aguça-se quando defende, com indignação, a morte dos desertores do exército real - se foi contrário ao que fez, em sentido, não o foi, certamente, em direcção. Com que modelos, com que ideais, com que convicções temos legitimidade para defender uma causa ? Uma disputa entre a honra e a lealdade e a segurança (material) e estabilidade (emocional).

A ruptura de uma ordem social e o surgimento de novos paradigmas. Se nos perguntarmos sobre a razão pela qual o Príncipe tão serena e amigavelmente compreendeu e não se opôs à adesão à revolta por parte de Tancredi, encontramos a resposta nas suas palavras: "Para que tudo se mantenha como está, é preciso mudar as coisas.". Talvez por o próprio Visconti ter pertencido à aristocracia, não podemos deixar de interpretar aqui e em todas as imagens, uma certa nostalgia pela mística que envolve a realeza, algo que, em 63, acabou e não volta mais. É por isso que o chefe da família, completamente ciente disto, mas não descurando os problemas que criaram a crise política em que se vive, se sente no dever de se manter fiel ao seu brasão, às suas tradições, à sua história, esperando, paradoxalmente, um triunfo da mudança. A mudança nunca manteria as coisas num sentido literal, mas evitaria sim que um reino, uma família e um povo caíssem na miséria da vergonha e do esquecimento - a preservação da história (ou não fosse o Homem feito de memórias). E novas questões se levantam, como quais os fundamentos da ruptura, a legitimidade da mudança e o papel de cada um como catalisador, travão ou moderador.

"Nós éramos os leopardos, os leões; aqueles que vão tomar o nosso lugar serão as hienas, os chacais; e uma parte de todos nós, leopardos, chacais e ovelhas, continuará sempre a ver-se a si mesmo como o sal da terra."

Sunday, June 20, 2010

Os Filmes dos Presidentes - Aníbal Cavaco Silva


Um retrato auto-biográfico que, a certa altura, deixa de o ser em relação ao pianista polaco Wladyslaw Sziplman para o passar a ser em relação à humanidade.

Na primeira parte da película assistimos à jornada da família do músico, despejada do seu lar, constantemente realojada em locais exclusivamente dedicados a judeus, durante dois anos de vida que fluem de forma estranhamente natural - a resistência colectiva não existe e a indignação individual rapidamente se conforma (v.g., a venda do piano), não havendo oposição ao obstáculo (tese-antídese), de onde se extraia a síntese. Uma continuidade pautada por cenas que vão do despertar da repulsa em nós, público, a uma aflição e horror pela total falta de limites em que mergulhou a crueldade humana na Europa Ocidental, num passado que tememos acontecer em todo e cada segundo, se existirem infinitos universos paralelos por unidade de tempo (v.g., o assassinato do velhinho de cadeira de rodas).

Este sentido acaba por conduzir todo o filme. Wladyslaw fica sozinho, enquanto toda a sua família apanha o comboio até à morte, mas não se emancipa nunca como herói. Não obstante os focos de resistência que acabam por surgir, Spzilman sempre caminha desleixado, sobrevivendo por sorte ou caridade, e nunca tentando ser um salvador. O cenário claustrofóbico dos bairros de judeus, a precariedade das vivências e da alimentação nunca deixam de acompanhar o músico quando este consegue fugir para o lado dos alemães. Um tempo sempre chuvoso, a saliência dos seus ossos, o cabelo desgrenhado e a barba desarranjada que vão surgindo, os edifícios completamente destruídos, as mortes arbitrárias que caem do céu, comandam um erguer de um desespero que roça a loucura e a demência, face à putrefacção a que o homem fora reduzido.

Quando voltamos aos bairros judeus, a caminhada é solitária, ladeada por destruição e com o infinito à frente, doentia, mesmo depois da cura pelo médico, húmida, fria e silenciosa. Depois de todo um retrato de tristeza, de incapacidade, de repulsa, de morte, do negrume em que se conseguiu embrulhar o homem, pelas mãos de Hitler, surge a esperança, a luz, o sorriso, a música. Ao longo de toda a película, Szpilman ameaça tocar o piano, veículo da beleza, da tranquilidade, da pausa, da firmeza, ainda que isso o denuncie e lhe custe a vida. Confrontado por um oficial Nazi, modela aquilo que nos surge quase como o mais bonito som do mundo. Deixa-se levar pelas notas redondas, doces, suaves e, com a simbologia de um raio de sol batendo-lhe na cara, parece voltar a fazer os sentimentos de humanidade, clemência e compaixão descer dos Céus e inundar a Terra.

Um retrato cruel, amargo e triste sobre o holocausto, que, no entanto, não nos quer deixar cair num sentimento de total vergonha do homem, porque sempre podemos escolher entre o bem e o mal (como fez Wilm Hosenfeld) e porque sempre haverá um raio e uma melodia de esperança.

Thursday, May 27, 2010

O Estado vai ao Cinema


Última actualização do post: 09 de Julho de 2010

Os Filmes dos Presidentes - Aníbal Cavaco Silva
Os Filmes dos Presidentes II - Jorge Sampaio
Os Filmes dos Presidentes III - Mário Soares
Os Filmes dos Presidentes IV - António Ramalho Eanes

O Estado vai ao Cinema. Mesmo. É uma iniciativa da Cinemateca portuguesa, que convidou o actual e os antigos Chefes de Estado de Portugal a escolherem o seu filme preferido, filmes esses que serão transmitidos no local, com a presença de cada um deles. Cavaco Silva escolheu "The Pianist" / "O Pianista", de Roman Polansky, sessão que está a decorrer neste preciso momento (27 de Maio, 21h30min); Jorge Sampaio escolheu "Il Gatopardo" / "O Leopardo", de Luchino Visconti (8/6, 21h30); Mário Soares escolheu "O Milagre Segundo Salomé", de Mário Barroso (23/6, 21h30) e Ramalho Eanes, que não podia deixar escapar um desses brilhantes filmes de guerra que por aí andassem, elegeu "Saving Private Ryan" / "O Resgate do Soldado Ryan" (29/6).

O Presidente da República e os seus antecessores estarão presentes na sessão correspondente ao filme que escolheram.

Pessoalmente, achei uma iniciativa excelente. Ninguém consegue escapar à magia da 7ª arte.