Wednesday, September 29, 2010

Ante-cinema.com já viu "Marginais"

A falta de tempo anda por aí e ainda não tive oportunidade de ver o novo filme português, "Marginais", de Hugo Diogo. No entanto, li a crítica feita em www.ante-cinema.com e, sinceramente, vai de encontro a tudo aquilo que achava que se ia passar com o filme. Passo a citar:



"Mais um filme português ...

Quando estamos num país como Portugal e falamos de cinema, o primeiro nome que vem à cabeça de qualquer compatriota é, na sua maioria, o de Manoel Oliveira. Lá fora, um nicho muito especifico do nosso cinema é apreciado e aplaudido por meia dúzia de críticos, e talvez elogiado em dois ou três festivais internacionais. Para contrariar esse nicho de que falo em cima, surge uma geração de realizadores que procura arrebatar o culto do ‘blockbuster’ em Portugal e, porque não, fazer-nos gastar uns trocos para além do que já gastamos a ver o filme ‘tuga’, em pipocas e Coca-Cola. É daí que surgem osLeoneis Vieira’, os ‘Antónios-Pedros Vasconcelos’, e os Fernandos Fragatas’.

Em Marginais surge-nos um jovem realizador chamado Hugo Diogo, que depois de três anos conseguiu acabar um filme que teve problemas a vários níveis, parecendo destinado a nunca ver a luz ao fundo do túnel. Com um elenco composto por algumas caras conhecidas, e outras completamente a fazerem a sua estreia, Marginais é um filme ao estilo da narrativa de Guillermo Arriaga, não no que se refere à estrutura não linear, mas especificamente numa narrativa que converge o destino de todos os personagens. Temos o personagem Carlos, interpretado pelo conhecido actor de telenovelas José Fidalgo, que gere um ginásio destinado essencialmente ao treino de artes marciais, aplicadas posteriormente em lutas ilegais, onde Cão (Hugo Caroça) é o seu braço direito. Maria (Patrícia André) é a mãe solteira vitima de violência doméstica por parte do pai, que mantém uma relação dupla com Carlos e com o seu irmão Lucas (Fernando Martins). Para completar o leque de histórias temos a filha de Maria, Ana (Inês Guimarães), que para sobreviver às negligências da mãe, mergulha no seu mundo de ingenuidade, procurando companhia e afecto no vizinho de cima, um individuo estranho mas gentil.

O grande problema desta nova vaga que tenta assolar o cinema português é muito fácil de identificar. O problema está na carga brutal de influências que todos estes realizadores tentam a todo o custo introduzir nos seus filmes. Esquecem-se é que estamos num país em que as verbas utilizadas e os apoios existentes na execução do cinema em Portugal são escassos, e dificilmente haverá probabilidade de se fazer algo como vemos em Hollywood. Nos mais recentes como Arte de Roubar (2008), de Leonel Vieira, tudo o que vemos é um filme de Quentin Tarantino caso ele quisesse fazer uma cópia cocaínada e rafeira dos seus próprios filmes, e obviamente as referências de outros realizadores não acabam por aí. Fernando Fragata fez a versão telenovela de Twilight Zone (1954) com Contraluz (2010), e Hugo Diogo tentou fazer uma espécie de Clube de Combate (1999) com tons melodramáticos, onde tudo em Marginais cheira, e soa, a forçado.

Não demora muito tempo a perceber porque é que Marginais não é de todo um bom filme. Os três anos que passaram desde as filmagens e os problemas que originaram este atraso no lançamento do filme são óbvios. A longa-metragem sofreu processos de pós-produção que são evidentes durante o próprio visionamento, a nível de argumento, que parece por alturas adoptar estilos completamente diferentes, nomeadamente cenas com diálogos extensíssimos, com conteúdos a levantarem questões existencialistas, como depois temos cenas de acção baratas, com diálogos e interpretações irritantes, intervaladas por ‘bits’ musicais de artistas de hip-hop português. Porquê? Para criar ritmo num filme demasiado forte e dar tempo ao espectador para respirar?! Não creio. Tapar buracos parece-me a justificação mais plausível para esta ‘estranha’ abordagem, que se de facto queria primar pela originalidade, então prima pelo absurdo completo.

Se o argumento não funciona, pois a história, os personagens, e tudo aquilo que compõe um argumento não cativa minimamente, reinando o cliché total, então no mínimo se o filme é de acção, espera-se que haja acção. No entanto, as cenas das lutas ilegais roçavam a coreografia total, sem nenhum sentido de realidade, de brutalidade, de veracidade nas sequências, sendo que o principal problema está directamente relacionado com a pobreza dos efeitos sonoros criados para este filme. O Touro Enraivecido (1980) seria um exemplo a seguir no que toca a efeitos sonoros. Em termos de cinematografia, até podemos dizer que a fotografia não está má de todo, proporcionando tons apelativos, capazes de nos envolverem com o ambiente que o filme pretende. A banda sonora, falando especificamente da composição, entra em total desacordo em determinadas sequências do filme, ajudando a que o ‘overacting’ dos actores seja por vezes muito doloroso para o espectador aguentar sem pôr as mãos à cabeça.

Resumindo, Marginais vai directamente para a prateleira dos filmes portugueses que tentaram imitar alguém, ao invés de criarem algo verdadeiramente genuíno. Se estes filmes são incentivados pelo Estado, e o resultado final passa pela experiência de Marginais, então é preciso reavaliar seriamente a quem é que o dinheiro anda a ser distribuído. Para ser criada uma estrutura comercial, que produza filmes aspirantes ao estatuto de ‘blockbuster’, é preciso primeiro um esforço, uma união que passa por muito mais que apenas imitar as cenas ‘cool’ dos filmes de Hollywood. É preciso solidez em todos os aspectos, porque só os grandes como Michael Mann, James Cameron, John McTiernan e uma porrada deles conseguem, mas depois de um produto consistente, prontíssimo a deixar a sua marca." "

Link para o artigo.

Coisas e Afins


Algumas notícias, apenas algumas das que têm surgido durante estes últimos dias em que não tenho postado nada.

- Já há trailer de True Grit, dos Coen Brothers, de The King's Speech, com Collin Firth e de Harry Potter and the Deathly Hollows: Part 1. Quanto a mim: grandes expectativas para o primeiro, relativa indiferença quanto ao primeiro, grandes expectativas para o terceiro (depois das desilusões que têm sido os outros filmes da saga, com destaque para o sexto).

- Wong Kar-Wai, o brilhante e poético cineasta chinês, vem lá com um novo filme, que já está em pós-produção: The Grand Master, uma biografia de Ip Man, o mestre da arte marcial Wing Chun.

- Terminou, em Lisboa, o Queer Film Festival, festival de cinema LGBT. Tenho a dizer que, não obstante as minhas convicções relativamente liberais no que toca ao casamento homossexual e afins, vejo o conceito deste festival como uma palhaçada semelhante ao espalhafato procurado nas paradas LGBT - mais não são, logo, mais não é do que uma iniciativa sensacionalista, que transforma a noção de igualdade absoluta que tanto procuram (e que defendo) num autêntico circo de extravagância promiscua e deprimente.

- Começa hoje em Lisboa, com a presença do ilustre realizador George Romero, o MoteLx, festival de cinema de terror.

- Decorre, no início de Outubro, em Lisboa, partindo depois para outros pontos do país, a 11º edição do festival de cinema francês.

- Ao que parece, a série Glee poderá ter uma versão adaptada ao cinema.

- Christopher Nolan irá produzir mais um filme de super-heróis, Superman: Man of Steel. As negociações para quem assumirá o leme da realização já se iniciaram e correm rumores de que Darren Aronofsky terá sido abordado.

- Está escolhido o filme português a submeter à candidatura a Melhor Filme Estrangeiro, nos Óscares 2011, e é, contra tudo o que eu previa, Morrer Como Um Homem, de João Pedro Rodrigues.

Saturday, September 25, 2010

Mistérios de Lisboa vence Melhor Realização em San Sebastian.

Grandes notícias.


1º Festival Nacional de Escolas de Cinema

Cinema City de Alvalade, de 23 a 29 se Setembro.

Thursday, September 23, 2010

Três filmes portugueses nas salas

VÃO VER CINEMA PORTUGUÊS. Ainda que estejam tão desconfiados do argumento de "Marginais" ou do poster de "Assalto ao Santa Maria" como eu, vão ver. Eu irei, ou tentarei.

Wednesday, September 22, 2010

A Análise da Cena, no. 1: O início do ciclo

Da cena, da sequência, não interessa. Fica a intenção.

Abro a rubrica, há muito anunciada, com uma das muitas cenas do épico filme O Rei Leão de que não conseguirei deixar de falar. Aliás, só sabia que queria começar com este filme. Não conseguia era escolher uma cena. Acabarão por aparecer todas.



Uma das cenas mais bonitas, de um dos filmes mais magníficos a que já assisti. São três minutos que abrem com um nascer-do-sol cor-de-fogo, em tons de vermelho, laranja carregado e um vivo amarelo, acompanhados por um fulgurante grito tribal, que de imediato nos despertam os sentidos para assistir a uma obra inesquecível. Os primeiros animais erguem-se ao som das primeiras notas, numa sincronia majestosa, numa devoção respeitável, enquanto se desenvolve a primeira música de uma brilhante banda sonora, recheada de vozes doces e misteriosas, acalentada por uma flauta belíssima, com uma letra a saber de cor. Juntam-se os sons da selva, as onomatopeias incríveis. Do céu-fogo passamos ao céu-luz, e é sob esses já estabelecidos raios de luz da manhã que vemos desfilar uma imensa variedade de fauna, da girafa que descobre o céu, ultrapassando o monte, aos elefantes que se aproximam, grandiosos, em grande plano, aos antílopes que saltitam pelo nevoeiro, num longo plano, às formigas que, minúsculas, acompanham as zebras que salpicam a água com um fervor caloroso. Daí, seguimos Zazu até ao imponente Rei Mufasa, para onde também converge Rafiqui, cuja mística é-nos logo apresentada pelo corredor solene que o reino animal lhe faz, que tem como fundo uma brilhante luz, e assistimos ao emblemático baptismo do filho do rei. Fabuloso crescendo da música simples, criança, mas bonita, tal como Simba, voltando a transformar-se num intenso ribombar de sonoridade quando vemos um longo plano inclinado do rochedo, primeiro passo para a evidência da sua simbologia - o trono. Terminamos com uma rotação de câmara, misturada com um ligeiro tilt, na figura do pequeno leão, introduzindo, de forma pausada uma fragilidade destinada, destinada à solenidade, à luta, à bravura, à devoção e à adoração, pois esta é a cria que será guerreiro, o rejeitado que será salvador. E eis um zoom in rapidamente cortado por um zoom out e um festejo glorificante de toda a savana, numa combinação muito bem realizada da majestade do evento em si e da própria pequena personagem. A benção do céu chega, também, com um bonito raio de luz.

Tuesday, September 21, 2010

Mistérios de Lisboa: um épico português ?




Paulo Branco e dois milhões e meio de euros, Raul Ruíz e quatro horas e meia pelos cenários de Sintra. Eis a nova grande produção portuguesa, a participar no Festival de Toronto e de San Sebastian, com estreia nacional e internacional assegurada. Alguns dos que já viram, em França, chamaram-lhe "uma obra prima". A ver vamos.

Site Oficial.

Sunday, September 19, 2010

Os melhores das décadas, 2000: In the mood for love


Mergulhamos na claustrofobia de dois pequenos apartamentos contíguos, num prédio compacto e antigo, povoado por velhos e simpáticos inquilinos, sentimos a melancolia dos vários tons quentes mas por vezes tristemente esverdeados ou azulados, saturados, minuciosa e sinceramente bem arranjados e compostos, assistimos à deambulação simultânea de Chow e Su e concluímos que ficámos a conhecer uma das mais bem construídas estórias da amor do cinema contemporâneo.
O argumento conta a forma como um homem e uma mulher se entrelaçam num amor proibido, por verem um no outro um escape das suas relações conjugais frustradas, já que cada um dos respectivos parceiros mantinham relações com terceiros. Mas que não pareça banal esta introdução do relato amoroso que ficamos a conhecer, porque Kar-Wai consegue construir com uma humildade, uma verosimilhança, e uma profundidade impressionantes o evoluir desta comunhão, que começa numa farsa simbiótica, em que cada um pseudo-vê no outro o seu companheiro legal, e que termina num amor nunca físico, perdido, passado. Platónico.

Somos, por diversas vezes, esmagados e prensados pelas paredes dos cenários estreitos (o apartamento, as escadas, os locais de trabalho, as ruas), ficamos deprimidos por toda a manifestação meteorológica a que assistimos ser a chuva torrencial, damos várias vezes de caras com um close shot de um relógio, que nos lembra que também o tempo é personagem principal, somos confundidos por composições de espelhos que nos dão três e quatro vezes a mesma personagem, estamos quase sempre a participar a partir de uma perspectiva voyeurista, ora pertíssimo de um simples pousar de um cigarro, ora de debaixo de uma cama, ora a partir de uma cortina.



Os cortes que noutro filme poderiam ser injustificáveis, ou simplesmente desnecessários, juntam-se aos ângulos arrojados (constantes violações e variações da violação do princípio dos 180º graus) e às imagens com frames a menos, para nos hipnotizarem numa manipulação temporal, dissociando a vivência triste das personagens, em que os segundos e os minutos se arrastam pesadamente, da nossa vivência ao assistir a película, que segue o seu rumo normal e, por isso, nos causa aflição em relação a eles.

Porém, Disponível para amar conhece os seus mais tocantes fulgores de beldade na repetitiva câmara lenta, sempre acompanhada por uma brilhante banda sonora, que por diversas vezes transforma pequenos gestos, pequenos caminhos, insignificantes acções, em marcos nostálgicos e ao mesmo tempo esperançosos, tristes e ao mesmo tempo inspiradores, sérios e ao mesmo tempo irónicos. No final, o tempo passou e o passado que Chow e Su sempre quiseram viver está agora corroído, e se não o alcançaram na altura, se não o aproveitaram em tempos, não mais terão oportunidade, pois as ruínas são o que nos avassala, encobre, e são tão belas nesse seu esgar destrutivo.

Ou haverá sempre lugar a um sopro de vida ?

Friday, September 17, 2010

Joaquin Phoenix e Casey Affleck: GENIAL ?

Sem tempo para escrever, cito um artigo da SAPO Cinema:

"Em entrevista New York Times, Affleck reconheceu que «I'm Still Here» não é o retrato cru e doloroso da realidade que fingia ser, ao acompanhar a vida de Phoenix durante um período de dois anos.

"É uma actuação sensacional. É a performance da carreira dele", disse o actor e realizador irmão Ben Affleck.

As cenas em que Phoenix aparece a consumir drogas e a fazer sexo com prostitutas, apresentadas como um vídeo caseiro feito por parentes do actor, não eram situações reais. "Filmámos aquilo várias vezes, eram actuações", contou Affleck.

Até mesmo a polémica participação de Joaquin Phoenix no programa de David Letterman, em 2009, não foi o que pareceu. Letterman não sabia, mas o actor, que agiu de maneira atípica durante a entrevista, estava a encenar para o "documentário".

Affleck apresentou o filme no Festival de Veneza, no início de Setembro, como um documentário "resoluto".

Durante os 18 meses de filmagem, Phoenix "jamais se deixou intimidar e permitiu-me ver todos os aspectos da sua personalidade", descreveu Affleck.

O realizador e o actor são cunhados.

"Nunca tentei enganar ninguém. A ideia de uma, abre aspas, brincadeira, fecha aspas, nunca me passou pela cabeça", destacou."

Tuesday, September 14, 2010

Sunday, September 12, 2010

Saturday, September 11, 2010

Revista Golden Ticket com três novos teasers


A revista de cinema do blog Golden Ticket, de que já falei aqui, lançou recentemente mais três novos teasers desta segunda edição anual, que pode sair a qualquer momento.






ÚLTIMA HORA: Sofia Coppola ganha Leão de Ouro

Somewhere, 2010.

Sem dúvida, a surpresa do festival (classificada pela crítica como "bom, mas mais do mesmo").

Os melhores das décadas, 2000: Gladiator


Não me importo rigorosamente nada com vozes que bramem com a mais mortífera convicção de que Gladiador não passa de um aglomerado de texto previsível, fantasia e pseudo-comoção hollywoodesca, produzida, mecanicamente, em massa. Aliás, não concordo com isso. Não o classifico sequer como guilty pleasure, porque esses são aqueles filmes provavelmente maus, nomeadamente para a visão da generalidade da crítica, e dos quais gostamos sem saber bem porquê. Deste eu gosto, gosto muito, e sei bem porquê.
A fiabilidade histórica pura e simplesmente não existe, algo que não vejo como um erro de percurso, como uma desgraçada falta de preparação ou uma tentativa barata de ganhar uns trocos. O que Ridley Scott aqui faz é, partindo de outro épico, "Spartacus" (dir., Kubrick), criar uma estória com estrutura e conteúdo quase matematicamente clássicos, elevados a uma emotividade e magnanimidade envolventes e inspiradoras para os sentidos, mais do que para o intelecto. Maximus é, no fundo, um héroi literal, oposto a um anti-herói literal (os heróis não se fazem a eles; fá-los o povo, e, aqui, as pessoas do Coliseu falam por si), com objectivos e conflitos claríssimos e temporalmente distanciados de forma minuciosa, de uma calculabilidade de argumento tão evidente que, por paradoxal que seja, não consegue deixar de me envolver. É a genuína estória do bom contra o mau, contada com o recurso a uma civilização e cultura belíssimas, a uma fotografia muito bonita e a uma banda sonora incrivelmente bem conseguida, tornando não só aceitável como também necessárias as referências à afterlife.

Saturday, September 4, 2010

Revista Golden Ticket prepara novo número

Depois de, no final do ano passado, o blog de cinema Golden Ticket ter avançado com um projecto ambicioso e trabalhoso, em nome da discussão e análise cinematográfica em língua portuguesa, lançando uma revista online de 130 páginas, eis que chega a altura da sequela.

Depois de percorrer um sem número de filmes, associando-os, por grupos, aos meses do ano, foram eleitas as dez melhores películas que passaram pelos olhos dos dinamizadores da iniciativa, que podem ser consultadas, bem como toda a edição, no link que abaixo disponibilizarei. Não ficam por aqui e contam também com estatísticas e curiosidades sobre a grandiosa indústria do cinema.

Eis o primeiro trailer promocional do próximo número:




Se quiserem, podem consultar a primeira edição aqui:

Os melhores das décadas, 2000: Memento

É sem deslumbrar visualmente, sem uma fotografia ou uma câmara especialmente boas, que, sem pensar duas vezes, classifico Memento como um dos melhores filmes do ano 2000 e, como tal, da década. Uma original thriller de vingança, contado através de uma das mais brilhantes estruturas narrativas que alguma vez alicerçaram um filme, combinando uma explanação dos acontecimentos de forma cronologicamente inversa com uma outra, a preto e branco, cronológica, simplesmente. No entanto, não se entenda que se trata de um virtuosismo meramente formal, já que a mestria com que Nolan alia o seu guião às propriedades da montagem cria um claustrofóbico e misterioso cerco neuro-psicológico, que nos envolve a nós próprios numa intensa e contínua junção de peças e decifração de eventos, momentos, acções. Magnífico relato por entre as complexidades da memória, que não desafia apenas as personagens, mas também o espectador.

Thursday, September 2, 2010

Veneza exibe fotografias de Kubrick tiradas na Praia da Nazaré


É verdade. Já as conhecia (duas ou três) mas não sabia que tinham tamanha dimensão. A exposição estará no Festival de Veneza entre 1 e 11 de Setembro, e passará pelos Estados Unidos e Japão, entre outros, antes de chegar a Lisboa.

Almodóvar, o passado e as memórias: Los Abrazos Rotos (2009)

Fecho este pequeno ciclo de Pedro Almodóvar com o seu mais recente filme e com outros dos temas que lhe são mais caros, o passado e as memórias, presentes em toda a sua filmografia, ora como alicerce fundamental da estória, ora como principal ditador da pujança da mensagem. Anseio por voltar a falar dele, dessa vez com novidade, com o seu "La Piel que Habito", com data de estreia prevista para 2011.



Uma estória de amor e paixão, poder e possessão, desejo e fuga, traição e vingança, é isto que o realizador espanhol filma em Abraços Desfeitos. Uma estória que podia ter sido bonita, que devia ter sido bonita e que, vista e contada a partir do presente, produz, não a nostalgia poética de Tarkovsky, mas uma nostalgia colorida, musical, que não nos torna introspectivos mas que nos obriga a ter compaixão pelas personagens - se chorarmos, nunca será por nós, será sempre por eles, o que não serve para depreciar o filme, primacialmente emotivo, com um final feliz que faz lembrar a magistral montagem de beijos dos últimos segundos de "O Cinema Paraíso".
Uma vez mais, voltamos ao filme dentro do filme, com um argumentista cego que viu a sua vida sentimental e a sua carreira como realizador de cinema arruinadas por um homem que, por querer possuir uma mulher que, pertencendo-lhe apenas através da igreja e em nome de uma antiga gratidão (por lhe ter salvo o pai), não lhe pertencia em coração. Assistimos, assim, numa atmosfera pesada graças aos seus ângulos e à sua iluminação esfaqueante, mas sempre colorida, ao florescer desse amor proibido entre Mateo e Lena e afligimo-nos com o seu desenvolvimento, sob o olhar furtivo, omnipresente e videogravador do produtor Martel, marido ciumento, perseguidor e cruel, numa criação de um suspense e tensão muito bem conseguidas, exactamente como Hitchcock nos ensinou -saber mais do que as personagens, sempre através da imagem. Não escapa à crítica o subplot, já bastante mais melodramático, novelesco até, recuperando os passos já gastos do "filho ilegítmo com pai sempre presente", o que acaba por tirar ao filme um nível que tiveram outros do autor.

Veneza, de 1 a 11 de Setembro

Wednesday, September 1, 2010

Três Grandes Obras Subvalorizadas, da década 2000

Foi com honra e apreço que aceitei o convite de Roberto Simões, autor do blog "CINEROAD - A Estrada do Cinema" a partilhar algumas, neste caso três, obras da década de 2000 que considero subvalorizadas, na sua já longa rubrica entitulada "3 Grandes Obras Subvalorizadas".

Podem consultar as minhas escolhas clicando na imagem a baixo.


Aproveito para deixar algumas considerações quanto à forma como procedi às minhas escolhas, citando um comentário que fiz sobre isso:

Assim que me foi feito o convite achei que ia ser complicadíssimo, pela grande ambiguidade que o conceito "subvalorizado" tem aqui, neste circunstância. O que é que eu deveria considerar ? Os júris (Academia + Festivais) ? A crítica (profissional + desportiva, como a nossa, na blogosfera) ? O box-office ? A relação entre o filme e o público, nas vertentes de opinião pós-filme ou considerações pré-filme (por exemplo, se não soubesse de quem era, eu nunca levaria uma adaptação da Pocahontas a sério) ?

Sem recolher qualquer informação, sem fazer qualquer análise, formei aqui na minha cabeça um grupo que me dá a sensação que é subvalorizado pelas pessoas à minha volta - estas não englobam apenas as críticas dos blogues que sigo (até porque, aí, há tendência em valorizar todos os filmes subvalorizados, provavelmente por uma sensibilidade diferente que se tem, por maior rotina ou diversidade de filmes); englobam também os meus amigos, etc (para mim conta muito, nesta avaliação, o ranking IMDB).

Não obstante o facto de os três terem visto ou, no mínimo, vislumbrado grandes prémios (Assassination nomeado para Óscares, Globos e Veneza; The New World nomeado para Óscar, sem nenhum Festival grande, o que é injustíssimo; Punch com uma nomeação e uma palma em Cannes), o que sinto, pelas minhas noções e observações, é que, no geral, estes três filmes são muitas vezes menosprezados.