Thursday, June 24, 2010

Os Filmes dos Presidentes II - Jorge Sampaio

Il Gattopardo / O Leopardo (1963) é um longo mas belíssimo retrato da queda da aristocracia siciliana durante o Risurgimento, movimento de unificação da Itália.

O trabalho fotográfico é magnífico, imprimindo uma película em tons quentes (castanhos, vermelhos, laranjas, amarelos), que se dignam até a revelar um balanço entre o campo de acção dos revoltosos e a alienação em que continua a viver a nobreza. De um lado a terra, a poeira, o sacrifício de sol a sol, os tijolos das ruínas em que se abrigam, os próprios uniformes; do outro, o sol na paisagem, um fabuloso trabalho de decoração e costura - os panos vermelhos, o ouro, o requinte, os vestidos das mulheres, as decorações. A isto se alia uma câmara muito natural e várias boas prestações dos actores, sempre incrivelmente corteses, mergulhando a obra numa estranha concepção realista. Estranha porque se trata de uma sociedade de há 100 anos, não podendo nós deixar de acreditar que foi assim mesmo que tudo se passou. A mis-en-scene é, neste filme, perfeita. A música, durante todo o filme, é deliciosa.

O Príncipe de Salina é a personagem central deste reflexivo romance histórico, cujas acções vão muito para lá de uma preocupação superficial e materialista em relação à condição da sua família. Se o mais perceptível fio condutor da narrativa nos leva a vários bailes e festas da alta nobreza, a arranjos mais ou menos elaborados, mais ou menos requintados, de romances efémeros (Concetta e o soldado) ou amores eternos (Tancredi e Angelica - um belíssimo retrato, diga-se), estão sempre implícitas (e por vezes explícitas) valorosas reflexões de filosofia política.

A ideologia. Tancredi junta-se à revolta gilardina, ainda que sem qualquer censura por parte de uma família defensora da manutenção do estado de coisas, para mais tarde acabar por se aliar ao exército real, por ter mais condições. Esta mudança de atitude é quase imperceptível quando volta do combate, em que apenas se nota diferença no uniforme algum tempo depois da sua chegada, mas aguça-se quando defende, com indignação, a morte dos desertores do exército real - se foi contrário ao que fez, em sentido, não o foi, certamente, em direcção. Com que modelos, com que ideais, com que convicções temos legitimidade para defender uma causa ? Uma disputa entre a honra e a lealdade e a segurança (material) e estabilidade (emocional).

A ruptura de uma ordem social e o surgimento de novos paradigmas. Se nos perguntarmos sobre a razão pela qual o Príncipe tão serena e amigavelmente compreendeu e não se opôs à adesão à revolta por parte de Tancredi, encontramos a resposta nas suas palavras: "Para que tudo se mantenha como está, é preciso mudar as coisas.". Talvez por o próprio Visconti ter pertencido à aristocracia, não podemos deixar de interpretar aqui e em todas as imagens, uma certa nostalgia pela mística que envolve a realeza, algo que, em 63, acabou e não volta mais. É por isso que o chefe da família, completamente ciente disto, mas não descurando os problemas que criaram a crise política em que se vive, se sente no dever de se manter fiel ao seu brasão, às suas tradições, à sua história, esperando, paradoxalmente, um triunfo da mudança. A mudança nunca manteria as coisas num sentido literal, mas evitaria sim que um reino, uma família e um povo caíssem na miséria da vergonha e do esquecimento - a preservação da história (ou não fosse o Homem feito de memórias). E novas questões se levantam, como quais os fundamentos da ruptura, a legitimidade da mudança e o papel de cada um como catalisador, travão ou moderador.

"Nós éramos os leopardos, os leões; aqueles que vão tomar o nosso lugar serão as hienas, os chacais; e uma parte de todos nós, leopardos, chacais e ovelhas, continuará sempre a ver-se a si mesmo como o sal da terra."

Wednesday, June 23, 2010

Sunday, June 20, 2010

Os Filmes dos Presidentes - Aníbal Cavaco Silva


Um retrato auto-biográfico que, a certa altura, deixa de o ser em relação ao pianista polaco Wladyslaw Sziplman para o passar a ser em relação à humanidade.

Na primeira parte da película assistimos à jornada da família do músico, despejada do seu lar, constantemente realojada em locais exclusivamente dedicados a judeus, durante dois anos de vida que fluem de forma estranhamente natural - a resistência colectiva não existe e a indignação individual rapidamente se conforma (v.g., a venda do piano), não havendo oposição ao obstáculo (tese-antídese), de onde se extraia a síntese. Uma continuidade pautada por cenas que vão do despertar da repulsa em nós, público, a uma aflição e horror pela total falta de limites em que mergulhou a crueldade humana na Europa Ocidental, num passado que tememos acontecer em todo e cada segundo, se existirem infinitos universos paralelos por unidade de tempo (v.g., o assassinato do velhinho de cadeira de rodas).

Este sentido acaba por conduzir todo o filme. Wladyslaw fica sozinho, enquanto toda a sua família apanha o comboio até à morte, mas não se emancipa nunca como herói. Não obstante os focos de resistência que acabam por surgir, Spzilman sempre caminha desleixado, sobrevivendo por sorte ou caridade, e nunca tentando ser um salvador. O cenário claustrofóbico dos bairros de judeus, a precariedade das vivências e da alimentação nunca deixam de acompanhar o músico quando este consegue fugir para o lado dos alemães. Um tempo sempre chuvoso, a saliência dos seus ossos, o cabelo desgrenhado e a barba desarranjada que vão surgindo, os edifícios completamente destruídos, as mortes arbitrárias que caem do céu, comandam um erguer de um desespero que roça a loucura e a demência, face à putrefacção a que o homem fora reduzido.

Quando voltamos aos bairros judeus, a caminhada é solitária, ladeada por destruição e com o infinito à frente, doentia, mesmo depois da cura pelo médico, húmida, fria e silenciosa. Depois de todo um retrato de tristeza, de incapacidade, de repulsa, de morte, do negrume em que se conseguiu embrulhar o homem, pelas mãos de Hitler, surge a esperança, a luz, o sorriso, a música. Ao longo de toda a película, Szpilman ameaça tocar o piano, veículo da beleza, da tranquilidade, da pausa, da firmeza, ainda que isso o denuncie e lhe custe a vida. Confrontado por um oficial Nazi, modela aquilo que nos surge quase como o mais bonito som do mundo. Deixa-se levar pelas notas redondas, doces, suaves e, com a simbologia de um raio de sol batendo-lhe na cara, parece voltar a fazer os sentimentos de humanidade, clemência e compaixão descer dos Céus e inundar a Terra.

Um retrato cruel, amargo e triste sobre o holocausto, que, no entanto, não nos quer deixar cair num sentimento de total vergonha do homem, porque sempre podemos escolher entre o bem e o mal (como fez Wilm Hosenfeld) e porque sempre haverá um raio e uma melodia de esperança.

Friday, June 18, 2010

José Saramago: 1922 - 2010


"No final, apercebemo-nos de que a única condição para estar vivos é vir a morrer."

Thursday, June 17, 2010

I Girasoli / O Girassol (1970)


Começa com uma lindíssima fotografia sobre um imenso campo de girassóis aquele que é já um dos últimos filmes do mestre De Sica e aquele que considero ser um dos mais subvalorizados.
É entre Giovanna (Sophia Loren) e Antonio (Marcello Mastronianni) que se ergue um grande amor, exactamente a partir de um pequeno olhar, desde uma primeira brincadeira, aquecendo-lhes e fundindo-lhes os corações, levando-os a casarem-se, no início da II Guerra Mundial, para terem uns últimos 12 dias juntos (a licença de António). Por entre outras maquinações, de uma inocência e traquinices quase infantis, ou não fosse o cupido uma criança, o casal procura prolongar a sua estadia num leito comum, sem sucesso. O comboio, símbolo da partida, da distância e da chegada, não mais volta, nem tão pouco trazendo uma carta, uma breve notícia, mergulhando uma mãe e uma mulher numa agonia interior que quase lhes consome vida terrena. "Mas ele está vivo !", murmura Giovanna para si, para a sogra e para os outros. Enlouquecida, mas disfarçada por uma serena esperança, a mulher que um dia foi esposa parte para a Rússia (o primeiro filme estrangeiro filmado na URSS), terra de onde haviam chegado os últimos, únicos e amargos relatos sobre Antonio - morto de frio, gelado na neve.

Em contraste com a imponente praça vermelha, do comboio sai uma mulher magra, cansada, de semblante carregado, olhos que reflectem a balança da consciência procurando encher mais o prato da esperança do que o da mágoa perante o destino. Lá longe, tão longe, encontra o seu marido bem de saúde, vivendo com uma lindíssima mulher russa, de cabelos ruivos e olhos azuis, que empresta os traços a uma pequenina filha.

Tivesse Antonio morrido na guerra para que Giovanna houvesse guardado o seu amor para sempre e se soubesse amada do outro lado da fronteira da vida. Teria sido preferível. Volta para casa e partilha o sofrimento com uma mãe já velha a quem o filho também abandonou. O tempo passa. Antonio vem da Rússia procurando por perdão, defendendo-se com um assalto à sua memória e à sua consciência, de que havia sido vítima nos tempos em que havia sido salvo pela sua nova companheira, pretendendo voltar a Itália e re-declarando o seu amor.


Porém, traída por um destino aproveitador de um tempo de guerra, Giovanna tinha já, também, uma criança nos braços, cujo pai nunca chegamos a conhecer. Não precisamos. "Destruiríamos a nossa vida e a das crianças", diz Giovanna a Antonio. Um amor que um não um pode negar ao outro, demasiado forte para se esbater na traição mas ainda mais forte para que a mágoa, que lhe faz reflexo ao espelho, lhe conceda a virtude de ultrapassar os limites do perdão.

Uma estória agridoce, contada e mostrada de forma original e sensível, sobre um amor que poderia alimentar um caule de girassol ("Cada girassol cobre um soldado [morto]"), qual Tristão e Isolda - a eternidade.

Monday, June 14, 2010

Citizen Kane / O Mundo a Seus Pés (1941)


É através de extraordinárias inovações, como uma das primeiras utilizações intensas do flashback e a criação de uma estória através de uma concatenação dos pontos de vista de vários personagens, que Welles (protagonista e realizador) nos conduz por uma envolvente viagem no tempo, em que perscrutamos a vida de Charles Foster Kane, magnata dos magnatas, influente dos influentes, carente dos carentes. Saber quem foi, o que fez e como fez, imaginar como teria mudado e o porquê de tudo.

Um alarido inicial, suportado por uma antiquada voz radiofónica de um histerismo sereno, dão ao espectador um bilhete de embarque numa viagem quase documental, provocando uma ânsia de saber quem foi então esse homem tão absolutamente grandioso. Esta filosofia fantástico-realista flui pelos testemunhos de várias personagens, que um dia foram uma importante peça na vida de Kane, ajudando a compor um puzzle com demasiadas peças para um homem só.

Com uma fotografia fantástica (a introdução do deep focus) e cenários exuberantes e requintados (a magnanimidade do palácio), tudo é glória e ostentação. Com uma grande prestação do actor principal e diálogos brilhantes, ficamos a conhecer uma personalidade de inigualável carisma, tornando-se difícil não acreditar na quase ridiculamente exagerada influência que um só homem havia tido nos desígnios de um país, como também a criar uma empatia e uma disciplina de apoio ao ex-futuro candidato a Presidente dos EUA.
Por entre toda esta perfeição de vida, querendo ser adorado por todos, controlando as emoções de multidões e multidões (v.g. a forja de críticas positivas às prestações da sua mulher, na Ópera), Charles vive totalmente sozinho e isolado, sem o saber, no seu "eu", na sua consciência, de si para consigo próprio. Afectado pela crise económica e envolvido em escândalos amorosos que começam por arruinar algumas das suas perspectivas profissionais e pessoais futuras, toda a adoração populista que um dia o envolvera começa a desmoronar-se, revelando a superficialidade com que foi amado e de cuja profundidade nunca duvidou.


O seu dinheiro não mais comprava um povo. A sua segunda mulher acabaria por o deixar, partindo em liberdade, fugindo da confusão que Kane não consegue evitar até aí e até ao últimos segundos da sua morte, entre a realização material, e um apoio das massas histéricas mas instáveis, e a realização emocional e espiritual, e um apoio de um grupo modesto mas de sentimento sincero.


A partir daqui, toda a ostentação do palácio dá lugar a uma vastidão negra, assustadora, vazia e melancólica e a Charles nada mais resta do que enlouquecer e morrer como, no fundo, sempre viveu: sem ninguém. No seu último fôlego, pronuncia a misteriosa palavra "Rosebud", que, aliás, é o que motiva a pesquisa jornalística. Acabamos por nos aperceber que era o nome do trenó em que tanto gostava de brincar enquanto criança, ainda antes de ser contaminado pelo vício do dinheiro e da ganância

É com certa angústia e complacência para com a personagem de Charles que me parece inevitável uma reflexão sobre a futilidade do materialismo e do populismo que acabará sempre por perder um combate contra a emoção, ou não fossem os sentimentos os verdadeiros e últimos móbeis do homem.

Últimas

The Hobbit.
Guilhermo del Toro desiste da adaptação da prequela do épico The Lord of the Rings, The Hobbit, em virtude das dificuldades de financiamento que ameaçam a produtora. Apesar de, nos próximos meses, ainda continuar a colaborar com Peter Jackson e Frank Walsh na escrita do argumento, já estará de partida para um novo projecto: um remake de Van Helsing.

MIB III.
A versão original do argumento do terceiro filme da saga, escrita por Etan Coen (não confundir com Ethan), vai ser melhorada por David Koepp, que escreveu os primeiros de Jurassic Park, Spiderman e Mission Impossible.

Cleopatra: A Life.
Angelina Jolie poderá vir a interpretar Cleópatra, na adaptação do reconhecido livro "Cleopatra: A Life", de Stacy Shift. Escreve a autora que não se sabe, ao certo, como era a antiga rainha, a não ser que "era fisicamente perfeita". Uma obra com boas críticas, naquele que parece ser um relato que faz jus ao tom épico com que terá vivido e com que mudou, viva ou morta, a história do Mundo. Esperemos pelo filme.

Batman III.
Joseph Gordon Lewitt poderá ser o indicado para interpretar Enigma, o vilão do terceiro filme do cavaleiro das trevas. Depois de dar nas vistas em vários filmes, como 500 Days of Summer (assim entende a crítica), e já depois de ter trabalhado com Nolan (que, ao que tudo vem indicando, estará ao volante deste terceiro filme) no esperadíssimo Inception, poderá esta ser a oportunidade de uma vida.

Friday, June 11, 2010

Whitaker vai ser Louis Armstrong


Admitindo não conhecer com a mínima profundidade o rei do Jazz, ficando-se pelas músicas mais populares, revela-se agora encantado com a nova jornada biográfica que vai fazendo pelos recantos da vida do autor - isto porque Forrest Whitaker não só vai protagonizar como também vai realizar o filme.

A ideia não será criar um retrato cronologicamente orientado, por ser algo absolutamente impossível, em virtude dos inúmeros eventos de magnitude em que se envolveu Armstrong, mas sim a criação de uma estória em torno de um mito. Aliás, dois mitos - a sua vida pública e a sua vida privada.

Um filme sobre um homem e sobre uma lenda.

Thursday, June 3, 2010

"Um Funeral à Chuva" com o apoio da Selecção Nacional

Tirando ali o Nani e o Eduardo, bem que podiam ter sido um bocadinho menos arrogantes.

De qualquer forma, excelente iniciativa por parte da equipa do filme.


Wednesday, June 2, 2010

Um Funeral à Chuva - Nova etapa no cinema português ?


"Um Funeral à Chuva", a primeira longa-metragem de Telmo Martins, é filmado exclusivamente na Covilhã e na Serra da Estrela e assume a titularidade da proeza de ser um dos primeiros filmes portugueses independentes a serem realizados sem qualquer apoio do Estado.

Em entrevista ao AnteCinema, o realizador confessou que tenta, com esta obra, estabelecer o meio termo de que o cinema português necessita, descolando-se dos dois extremos a que tem estado acorrentado: um cinema totalmente comercial e um cinema totalmente de autor, para um número restrito de apreciadores. Não podia estar mais de acordo. Aliás, parece-me uma ideia extremamente simples e realista: é preciso acabar com a superficialidade e futilidade de alguns filmes que por aí andam (chamo-lhe O fenómeno Soraia Chaves nua), mas também é preciso trazer as pessoas ao cinema, deixa-las com raiva, a chorar, com um nó na garganta, radiantes. Precisamos do público. O cinema tem de ser para o público. Se não, o que seria desta arte ?

Um grupo de amigos da faculdade reencontra-se ao fim de dez anos para chorar a morte de um deles, enquanto relembram, com nostalgia, tudo o que passaram. Uma comédia dramática sobre a profundidade da amizade.

Aqui seguem dois links para entrevistas relacionadas com o filme:

Telmo Martins (realizador), ao AnteCinema);
Luís Campos (guionista), ao JoãoNunes.com.

Deixo-vos também o promissor trailer.

Tuesday, June 1, 2010

Lars von Trier - Trilogia "Europa"

A trilogia "Europa" é o conjunto das três primeiras longas-metragens do realizador dinamarquês, que não se identificam pela estrutura narrativa, mas sim pela técnica (a introdução da rear projection) pelo estilo, filmagem e efeitos (Europa seria o percursor de The Schindler's List) e pelo sempre presente herói que acaba por contribuir para o triunfo da desgraça. Em todos os três filmes, muito especialmente em Europa e em The Element of Crime, somos envolvidos numa profunda reflexão sobre as motivações, as ânsias, as dúvidas, sobre todo o psicológico do nosso personagem principal de uma forma brilhante, no limite do mágico.



3. Epidemic / Epidemia (1987)

Protagonizado por von Trier e por Niel Vorsel, este filme conta a estória de dois argumentistas que escrevem um argumento sobre uma terrível epidemia que se abate sobre a Europa e se propaga a uma velocidade assustadora, sem qualquer antídoto em perspectiva. Na sua imagem a preto e branco, a claridade como maior fatia da cinematografia e uns tons de verde azulado deixam transparecer uma atmosfera realmente doente. Paralelamente ao trabalho dos argumentistas, assistimos ao filme que estes vão escrevendo: um médico idealista rompe com as correias da racionalidade que os seus colegas sobreviventes tentam impor-lhe, para se lançar numa utópica corrida pelo salvamento de inocentes.
O filme, em si, não nos diz muito e diz-nos muita coisa. É considerado um dos maiores auto-retratos do realizador, sem que se compreendam muitas das suas incursões. Consegui achar alguns pedaços de humor, em alguns diálogos entre as duas personagens principais e senti que a pressão que os dois sentem ao ter de escrever um argumento com pouco tempo contribui, juntamente com aquele sentimento de não saber bem o que quer dizer o filme, para reconhecer validade a uma declaração de Lars von Trier: "um filme deve ser uma pedra no sapato.". Na verdade, fiquei mesmo com um nó na garganta, depois de ver este.
O nosso herói acaba por contribuir para o mal que quer eliminar, já que o médico da estória dentro da estória acaba por descobrir que é ele mesmo que propaga o vírus. Não chegasse isso, no final da estória fora da estória, assistimos a uma aterradora visualização da forma como uma epidemia surge na vida real, como se fossem os próprios cineastas os criadores de todo o mal.
Perturbador.



2. The Element of Crime / O Elemento do Crime (1984)
Uma obra extraordinária sobre a eterna dicotomia entre a realidade e a fantasia, edificada sobre a loucura de um homem e sobre o rasto de morte que persegue e que acaba por o consumir. Ficsher (Michael Elphick) está no Cairo a contar, sob o efeito da hipnose, a sua última experiência na Europa, para onde foi chamado para resolver um crime hediondo. A pausada e serena voz do narrador e de Fisher, quando começa a contar a sua história, e as indicações do hipnotisador, deixam-nos logo em modo de partida para uma apreciação do filme em estado intencionalmente dormente. A cor do filme, sépia com intensidade no amarelo, o constante recurso à imagem e ao embalador som da água a escorrer ou a cair, envolvem o espectador na profunda, perturbada, confusa e melancólica consciência do personagem principal, passando por cenários surreais e pouco aprazíveis, num distópico continente fustigado pela Guerra. Nunca sabemos bem o que faz parte da realidade e o que faz parte da sua imaginação, moldada pela traumática experiência que viveu (por exemplo, a associação da imagem do burro à fantasia e a sua aparição ao longo do filme).
Fisher conta que voltou à Europa para resolver um crime que, vem a perceber, em muito se assemelhava aos "crimes da lotaria", uma série de assassinatos perpetrados havia alguns anos. O método que segue é o de Osbourne (Esbound Knight), seu antigo mestre, o grandioso teórico da Criminologia que havia editado o livro "O Elemento do Crime", sobre como a entrada na pele do criminoso é a chave perfeita para a resolução de um caso. Osbourne está velho e louco. Afirma que Harry Grey é o autor dos massacres, com base num velho relatório elaborado pelo mesmo, três anos antes do primeiro crime. Porém, Grey terá morrido antes desse primeiro crime, num acidente em que Osbourne estava presente. Como é possível ? Não será isto fruto de uma ameaça de Harry ? O que sabemos é que a alma do antigo professor não mais aguenta o facto de achar que apenas contribui para o desabrochar da criminalidade, acabando por se suicidar.
Fisher decide perseguir Harry Grey sendo Harry Grey. Procura os mesmos lugares, dorme nas mesmas camas. A certa altura, encontra Kim (Me Me Lai), uma prostituta, com quem tem um sexo ao mesmo tempo frio e intenso, em circunstâncias que novamente nos fazem duvidar da veracidade da estória do polícia, e que contribuem para associarmos a personagem a uma alma vazia. Kim ajuda-o a entrar no papel do assassino, dando-lhe uns comprimidos para reproduzir as suas enxaquecas, atirando Fisher para um novo nível de sofrimento, desta vez físico. Por diversas vezes, lembra que "Harry Grey passou metade da noite com a Kim", claramente referindo-se à nossa personagem. Será assim mesmo ? Julgo que sim, acabando por ser um indício do fatal fim que se aproxima: Fisher descobre que Kim dormiu mesmo com Harry Grey; aliás, tem um filho dele. "Harry Grey passou metade da noite com a Kim.". A esta altura Fisher já é tão Harry Grey como o próprio. Ao vestir-se do criminoso, não conseguiu nada se não sê-lo - a prova disso é a relação com a prostituta. Como um louco, assoma à janela e dispara vários tiros para o além, exactamente como fez Osbourne da última vez que o vemos com vida, já em delírio, num cume do êxtase de histeria.
O final parece quase inevitável. Fisher acompanha uma rapariga pequenina a um local onde esta deve encontrar-se com o criminoso, sozinha, para que ele lhe compre muitas "raspadinhas". As centenas de garrafas no chão do local de encontro, perfeitamente dispostas, evidenciam, uma vez mais, o carácter surreal da estória. Após alguns momentos de suspense, sons. Um amuleto, em forma de cabeça de burro, o símbolo do assassino, cai do bolso do nosso herói, que apenas o guardava como prova. A rapariga, apavorada, julga estar perante a encarnação da sua sina e Fisher, consumido pela cegueira e pela obsessão do homem em que tentou transformar-se, torna-se ele mesmo o desprezível monstro que tenta destruir.



1. Europa (1991)
Um jovem rapaz, Leopold Kessler (Jean-Marc Barr), vem de uma acolhedora América para uma Alemanha completamente destruída pela Guerra, onde o desemprego e a inflação fustigam toda a população e onde as doenças se propagam. Os segundos iniciais em que somos conduzidos, em primeira pessoa, por uma linha de ferro, são acompanhados por uma característica voz de serenidade, que nos prepara para o que vamos ter quando chegarmos "à Europa", quase empatando a nossa expedição, tentando fazer-nos parar.
A imagem está quase sempre a preto e branco, com o grande papel das tenebrosas cenas na caracterização grotesta do continente a que chegamos. Kessler vai trabalhar para os caminhos-de-ferro para ajudar a reconstruir o país de onde partiu. Na verdade, o desenvolvimento dos transportes é um dos pontos fulcrais para a recuperação social e económica da ex-potência mundial, que assume, desde logo, uma nova filosofia de cooperação e união, ao empregar um estrangeiro apesar os inúmeros desempregados nacionais que vão desesperando.
Mas a paz não vive descansada. Os lobbies contornam as novas regras e a resistência nazi ainda se faz sentir. Max Hartmann, dono da companhia ferroviária onde trabalha Kessler, a Zentropa, consegue a cooperação de um judeu, num processo de inspecção, para se livrar de possíveis acusações de colaboração com o III Reich, mas apenas até se suicidar. A cena é absolutamente brutal, com o sangue a transbordar da banheira e a fluir até ao corredor, para terror da sua filha Katharina e de Leopold. O resultado de uma consciência pesada, que nos deixa a balançar entre a o contentamento pelo castigo que sofre, e a complacência com o arrependimento profundo que revela sentir. É este último que acaba por prevalecer, com a luta clandestina que várias pessoas têm para garantir um funeral digno ao empresário.
Depois da cena da banheira, são as cenas entre Leopold e Katharina aquelas em que surge a imagem a cores, um reforço da emoção, da esperança que pode emergir. Uma paixão que brota e que admite sobrepor-se a todas as dificuldades, com a cena de sexo em cima de uma linha de comboio em miniatura simbolizando, julgo eu, a superioridade da sua relação a qualquer guerra, a qualquer reconstrução, a qualquer intriga ou traição.
Tudo acaba por complicar-se. Sem querer, Kessler é cúmplice no assassinato de um político da confiança dos aliados. A confusão instala-se no seu interior e o medo eleva-a ao estado de loucura quando os Werewolf, resistência nazi, raptam a sua amada, exigindo que coloque uma bomba no comboio, aquando da passagem numa ponte.
É a partir daqui que assistimos aos verdadeiros desafios do nosso personagem. Chega como herói e tem de sair como mais um dos cultores da desgraça. Chega como um romântico enamorado e tem de sair um desgraçado viúvo. Chega como um estagiário promissor e enfrenta um exame que não consegue levar a sério, por tudo o que o perturba. Agora, tudo se passa num comboio, um espaço fechado mas em contínuo movimento, criando a dicotomia entre a claustrofobia, o destino fatídico da perda a que não pode fugir (ou o seu amor ou a sua dignidade/lealdade/patriotismo) e a estrada infindável, a esperança de um novo rumo.
O twist final é absolutamente fantástico. Katharina era ela mesma um membro do grupo nazi Werewolf, ainda que lute por autonomizar a influência que deveria exercer sobre Leopold do amor que acabou por sentir por ele. Desesperado, louco, finalmente deixando para trás a ingenuidade que o trouxe à Europa, confrontado com um mundo cínico, hipócrita e sedento de poder e vingança, depois de assaltado na sua última esperança, desiste de desactivar a bomba que lhe havia toldado o espírito e voltado a iluminar a alma (a certa altura vai tentar voltar atrás), para deixar acontecer a explosão. Morre afogado, em mais uma sequência em que o narrador nos tenta absorver para o local, contando até dez e deixando-nos antecipar a dolorosa morte - a contagem vai em 6 e já sentia aflição.